Produtor amplia a produção de café com apoio do Sicoob e prepara a propriedade para seguir nas mãos da próxima geração
Fotos Julio Huber
Julio Huber e Bruno Faustino
Na Fazenda Boa Esperança, em Ibatiba, produtor que nasceu entre os cafezais construiu uma história de trabalho ao lado da família e encontrou no cooperativismo de crédito um parceiro para ampliar a produção e preparar o futuro da propriedade.
“Café é que rasga a promissória. Café é que paga a conta”. A frase que Antônio José Gomes ouviu do pai durante a infância continua presente na memória do produtor rural, aos 71 anos. Mais do que uma lembrança familiar, ela traduz a importância que o café sempre teve na trajetória dos Gomes. Na Fazenda Boa Esperança, no Córrego Perdido, em Ibatiba, Antônio cresceu entre os cafezais, acompanhou as transformações da lavoura e construiu sua própria história em uma atividade que já fazia parte da vida de seus pais e avós.
“Comecei a engatinhar em cima de terreiro de café, e estou até hoje. Sou amante de café, sou produtor, gosto e sempre me dei bem produzindo café”, conta. A propriedade onde essa história continua tem cerca de 46 alqueires e aproximadamente 600 mil pés de café. Durante a colheita, o trabalho mobiliza parceiros agrícolas e a própria família, enquanto Antônio acompanha uma produção que, em uma boa safra, pode alcançar milhares de sacas.
Uma história escrita entre os cafezais

A relação de Antônio com o café começou muito antes de ele assumir o comando da propriedade. Ainda criança, acompanhava os pais e os irmãos na lavoura e viu de perto as mudanças pelas quais passou a cafeicultura. Ele lembra das diferentes formas de produzir mudas e plantar café utilizadas ao longo das décadas, em um período em que o conhecimento era transmitido principalmente dentro da própria família e o trabalho exigia muito mais esforço manual.
A família também enfrentou momentos difíceis. Na década de 1960, a broca atingiu os cafezais e, posteriormente, veio a erradicação das lavouras. O período marcou profundamente os produtores da região, mas o pai de Antônio voltou a acreditar no café quando, em 1971, surgiram incentivos para o replantio. A aposta deu resultado: em 1969, ele havia colhido 200 sacas; dez anos depois, em 1979, a produção chegou a 8 mil sacas.
Para Antônio, aquela retomada mostrou a força que a cafeicultura poderia ter na transformação das famílias rurais. Ele lembra que não foi apenas sua família que cresceu naquele período. Muitos parceiros agrícolas também conseguiram comprar suas próprias terras e melhorar de vida com a expansão da produção. Por isso, quando fala sobre o café, Antônio não está falando apenas de uma cultura agrícola, mas de uma atividade que ajudou a construir comunidades e oportunidades no campo.
Uma lavoura que olha para o futuro
Hoje, a Fazenda Boa Esperança mantém o café como sua principal atividade e reúne características que, na avaliação de Antônio, favorecem a produção de qualidade. As lavouras estão distribuídas em diferentes altitudes, com áreas que chegam a 1.200 metros acima do nível do mar. É justamente nas partes mais altas que ele enxerga potencial para produzir cafés diferenciados e, no futuro, disputar concursos de qualidade.
A expectativa para a safra de 2026 é colher entre 3 mil e 3,5 mil sacas. O número, porém, não conta sozinho a história da propriedade. Há também a experiência acumulada pelo produtor, a participação dos filhos e os investimentos que continuam sendo realizados. Antônio sabe que a agricultura está sujeita ao clima e às oscilações do mercado, mas prefere olhar para as dificuldades com a tranquilidade de quem já atravessou muitos ciclos.
O crédito que virou novos cafezais
Foi nesse processo de investimento que o Sicoob passou a ocupar um espaço importante na trajetória de Antônio. A relação começou praticamente junto com a chegada da cooperativa a Ibatiba e, ao longo dos anos, foi marcada por financiamentos utilizados em diferentes momentos da propriedade. Houve investimentos ligados ao café e também a outras atividades, como pecuária, suinocultura e irrigação, até que a cafeicultura se consolidasse novamente como o principal negócio da família.
O investimento mais recente mostra de maneira concreta como o crédito pode se transformar em produção. Antônio conseguiu financiamento para plantar 80 mil novos pés de café, uma área que já está em desenvolvimento e que deverá começar a produzir em pouco mais de um ano. Para ele, o recurso foi decisivo para realizar um investimento que, sem financiamento, não conseguiria colocar em prática.
“Com esse crédito eu pude trabalhar e tocar a propriedade”, afirma. Ao explicar o que diferencia o Sicoob de outras instituições financeiras, Antônio destaca o relacionamento e a assistência recebida. Depois de tantos anos de parceria, a cooperativa deixou de ser apenas o lugar onde busca recursos para seus projetos e passou a fazer parte do planejamento da própria propriedade.
Uma relação que chegou à nova geração

A história de Antônio também ajuda a mostrar como o relacionamento entre uma cooperativa de crédito e um produtor rural pode ultrapassar a relação financeira. Rosane Bernardo, agente de Relacionamento do Sicoob de Ibatiba, conta que Antônio é associado praticamente desde a inauguração da agência e que hoje seus filhos também fazem parte da cooperativa.
Segundo Rosane, essa proximidade com as famílias está presente no trabalho desenvolvido pelo Sicoob na região. A cooperativa atua com projetos voltados à agricultura familiar, ao agroturismo e aos investimentos necessários para o desenvolvimento das propriedades, com atenção especial à cafeicultura, que é uma das principais atividades econômicas da região.
O relacionamento de longo prazo é, para ela, uma das características do modelo cooperativista. “O Sicoob está em Ibatiba há 26 anos e existem associados que permanecem na instituição desde o início das atividades. Nesse relacionamento, conhecer o produtor, sua família e sua realidade fazem diferença na hora de entender quais investimentos podem contribuir para o desenvolvimento da propriedade”, afirma.
No caso da cafeicultura, esse planejamento é ainda mais importante porque a lavoura exige tempo para começar a produzir. Rosane explica que as linhas de investimento consideram justamente essa característica, oferecendo condições que permitem ao produtor começar a pagar quando a plantação já apresenta uma pequena produção. É uma lógica que se encaixa diretamente na realidade de investimentos como o realizado por Antônio na implantação dos novos cafezais.
Uma nova geração começa a assumir o campo
Enquanto acompanha o crescimento dos 80 mil novos pés de café, Antônio também observa uma transformação importante dentro da própria família. Parte da propriedade já foi passada aos filhos, que começaram a fazer seus investimentos e a construir seus caminhos dentro da atividade rural. Para o produtor, essa continuidade representa uma das maiores conquistas de uma trajetória iniciada ainda na infância, quando ele próprio aprendeu com os pais e avós a importância de cuidar da terra.
Os filhos também já mantêm relacionamento com o Sicoob e participam dos novos projetos da propriedade. Antônio conta que pretende continuar investindo e que a família já avalia outras possibilidades de diversificação, entre elas a piscicultura. A propriedade possui água e, segundo ele, potencial para desenvolver a atividade.
Depois de décadas acompanhando safras, enfrentando dificuldades, ampliando a propriedade e vendo os filhos crescerem, ele ainda fala sobre o futuro com a disposição de quem sabe que uma propriedade rural precisa estar sempre em movimento. “Nesse caminho, o Sicoob aparece como um parceiro que acompanha a minha família há décadas e que ajudou a transformar parte dos planos em realidade”, conta.
