Governo do ES detalha plano com dezenas de frentes de ação para enfrentar o Super El Niño

Foto: IJSN

O Espírito Santo se prepara para enfrentar os efeitos do que órgãos estaduais já classificam como um “Super El Niño”, fenômeno que deve provocar estiagem prolongada, ondas de calor e maior risco de incêndios florestais no Estado, principalmente nas regiões Norte e Noroeste. Nesta quarta-feira (8), o governo estadual anunciou um pacote de medidas de prevenção e resposta, no mesmo dia em que o Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES) publicou uma nota técnica recomendando que o Estado e os municípios capixabas se antecipem aos riscos do fenômeno em 2026 e 2027.

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Governo cria centro de comando para coordenar as ações

Imagem: NASA Earth Observatory

Durante coletiva de imprensa na Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (Cepdec), o governador Ricardo Ferraço apresentou o Plano Estratégico de Preparação e Enfrentamento do El Niño, formalizado por decreto que também instituiu o Centro de Comando e Controle do El Niño.

A estrutura vai reunir Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e secretarias como Agricultura, Meio Ambiente e Saneamento para consolidar boletins diários e reuniões semanais de acompanhamento, permitindo ajustar a mobilização de equipes conforme a evolução do cenário.

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Ferraço reconheceu que o Estado não tem como neutralizar os efeitos do fenômeno, mas defendeu que ações preventivas podem reduzir seu impacto sobre a população, apontando agosto como o mês em que a estiagem deve se intensificar. “Estaremos desdobrando mais ações para o período em que está prevista uma estiagem mais longa, que irá trazer consequências econômicas e sociais para o nosso Estado”, afirmou o governador.

Agricultura recebe reforço em carros-pipa, maquinário e crédito rural

Foto: Freepik

A agricultura, um dos setores apontados como mais vulneráveis à estiagem prolongada, ganhou um bloco próprio de medidas dentro do plano estadual. O governo já entregou 46 carros-pipa para atender municípios afetados pela falta d’água, com investimento superior a R$ 21 milhões só na aquisição dos veículos.

Para apoiar diretamente os produtores, foram distribuídos 444 equipamentos agrícolas, com outros 38 ainda previstos, somando um aporte de quase R$ 160 milhões em maquinário destinado a produtores rurais e prefeituras.

O pacote agrícola também inclui a distribuição de mais de 140 ensacadoras de forragem, equipamento usado na formação de estoques estratégicos de silagem para garantir a alimentação do rebanho em períodos de escassez de pasto.

Na frente de crédito, o Estado criou uma linha de financiamento de até R$ 150 mil por propriedade rural voltada à construção de pequenas barragens, além de lançar um novo programa de crédito rural com foco em três frentes: conservação do solo, uso eficiente da água e adaptação às mudanças climáticas.

Investimentos somam centenas de milhões em água, barragens e combate a incêndios

Foto: Freepik

O plano detalhado pelo governo inclui um conjunto extenso de investimentos. Na área de agricultura e abastecimento, foram entregues 46 carros-pipa, com aporte superior a R$ 21 milhões, além de 444 equipamentos agrícolas,com mais 38 previstos, somando quase R$ 160 milhões em maquinário para produtores e municípios.

O Estado também distribuiu mais de 140 ensacadoras de forragem para formação de estoques de silagem e criou uma linha de crédito de até R$ 150 mil por propriedade rural para construção de pequenas barragens, além de um novo programa de crédito voltado à conservação do solo e ao uso eficiente da água.

Na infraestrutura hídrica, o governo já implantou 33 barragens de uso múltiplo, com investimento superior a R$ 100 milhões e capacidade de armazenar quase 17 milhões de metros cúbicos de água. Somam-se a isso 17 obras de macrodrenagem concluídas (mais de R$ 780 milhões), 20 obras de contenção de encostas em 13 municípios (R$ 111 milhões) e 217 obras do Fundo Cidades voltadas à prevenção e mitigação de desastres, com quase R$ 720 milhões investidos, cerca de 45% já entregues.

O Corpo de Bombeiros teve o número de unidades operacionais ampliado de 15 para 23, com a incorporação de mais de 600 bombeiros desde 2019 e compra de viaturas que somam mais de R$ 90 milhões, além da criação de um Centro Especializado de Resposta a Desastres.

O Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) contratou 56 brigadistas e construiu mais de 80 quilômetros de aceiros, enquanto o Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer) adquiriu duas aeronaves para apoio aéreo no combate a incêndios.

Monitoramento em tempo real de rios, clima e focos de incêndio

Foto: Divulgação/Sesp

Para acompanhar a evolução do fenômeno, a Defesa Civil passou a operar monitoramento meteorológico 24 horas, com 28 estações meteorológicas em funcionamento, e adotou a plataforma V-Fogo para localizar focos de incêndio em tempo real, com equipes de combate coordenadas a partir de imagens de satélite.

A Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) ampliou para 32 o número de estações de monitoramento de rios, aprimorou a modelagem hidrodinâmica para prever secas e inundações e atualizará o Plano Estadual de Recursos Hídricos, enquanto a Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan) instalou réguas milimétricas nos pontos de captação para acompanhar o nível dos mananciais.

O coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil, coronel Benício Ferrari Júnior, explicou que o fenômeno decorre do aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, que altera a circulação de massas de ar e o regime de chuvas em diferentes regiões do planeta.

Segundo ele, o Espírito Santo está numa área de transição climática, mas o histórico indica que a maioria dos eventos de El Niño tende a provocar seca, aumento de temperatura e mais focos de incêndio no Estado. “A maioria dos El Niños, traz um cenário de estiagem maior, um aumento de temperatura, e, por conta disso, mais incêndios em vegetação. Então esse é o cenário esperado”, disse.

Ferrari Júnior ponderou, porém, que isso não descarta chuvas fortes e localizadas em meio ao período de seca. “Essa chuva pode acontecer localizada, cair concentrada num lugar só, num dia só. Podemos ter um local inundado, enquanto que o resto do Estado está pegando fogo”, alertou.

Ele também destacou o papel da população na adesão a recomendações de economia de água e nos cuidados com queimadas em período de baixa umidade e ventos intensos.

TCE-ES recomenda planejamento antecipado a Estado e municípios

Também nesta quarta-feira (8), o Tribunal de Contas do Estado publicou, no Diário Oficial de Contas, uma nota técnica recomendando que o governo estadual e as prefeituras capixabas se preparem para os riscos do fenômeno climático em 2026 e 2027.

O documento, aprovado pelos conselheiros da Corte em sessão realizada na terça-feira (7), foi elaborado pela área técnica do tribunal com base em análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), simulações do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) e dados da agência norte-americana NOAA e do serviço meteorológico australiano.

Segundo o material, o El Niño 2026/2027 pode ser classificado como um “super El Niño”, com aquecimento superior a 2ºC acima da média no Pacífico Central. A nota do TCE-ES pondera que o fenômeno em si não provoca desastres diretamente, mas amplia a probabilidade de eventos extremos — com efeitos tanto mais graves quanto maior for a vulnerabilidade de cada município.

Para o Sudeste e o Centro-Oeste do país, o relatório do Cemaden citado pelo tribunal projeta comprometimento parcial da estação chuvosa combinado a temperaturas acima da média, cenário que compromete a recuperação de reservatórios e eleva o risco hidrológico em bacias estratégicas.

No caso específico do Espírito Santo, o documento aponta o estresse hídrico e a irregularidade das chuvas como os principais fatores de risco, com base no que já havia sido observado no El Niño de 2023/2024.

O material também alerta que a combinação entre calor, umidade elevada e frentes frias pode gerar pancadas de chuva intensas e pontuais, risco agravado no sul capixaba pela topografia acidentada, pelo assoreamento de rios e pela ocupação urbana em áreas de risco, como já identificado após a tragédia de Mimoso do Sul.

Riscos à saúde e recomendações a gestores públicos

Foto: Freepik

Entre os riscos sanitários listados pela nota técnica estão o aumento da proliferação do mosquito Aedes aegypti e, por consequência, dos casos de dengue, além de sobrecarga no sistema de saúde, prejuízos à aprendizagem escolar em razão das ondas de calor e agravamento da insegurança alimentar e da pobreza.

O TCE-ES recomenda que Estado e municípios revisem ou elaborem planos de contingência de defesa civil, capacitem equipes municipais, antecipem contratações de insumos e serviços para resposta a estiagens ou inundações e façam as reservas orçamentárias necessárias.

O documento também traz orientações específicas para as áreas de saúde, educação e assistência social da vigilância epidemiológica ao mapeamento de escolas em áreas de risco, e defende campanhas de comunicação sobre uso racional da água e prevenção a queimadas e à dengue.

A nota técnica conclui que ainda há tempo hábil para que gestores adotem medidas preventivas antes do período de maior risco, entre a primavera e o verão de 2026/2027, mas alerta que a inércia pode transformar riscos previsíveis em emergências caras, com possível responsabilização de gestores que não agirem a tempo perante o próprio Tribunal de Contas.

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