Foto: Divulgação/UFV
O horário em que o tomateiro recebe água pode influenciar a forma como a planta distribui os recursos produzidos durante o cultivo. É o que indica uma pesquisa da Universidade Federal de Viçosa (UFV), na qual plantas irrigadas ao entardecer produziram mais frutos do que aquelas que receberam toda a água no início da manhã.
A diferença foi observada mesmo com volumes equivalentes de água fornecidos às plantas. O estudo avaliou como o momento da irrigação interfere no metabolismo, no florescimento e na distribuição de biomassa do tomateiro.
Publicado na revista científica Plant Physiology, o trabalho aponta que o horário da rega pode ser mais um fator a ser considerado no manejo da cultura. Os pesquisadores, porém, destacam que os resultados ainda não permitem recomendar a mudança do horário de irrigação para lavouras comerciais.
Plantas mudaram a distribuição de recursos

No experimento, os pesquisadores compararam três estratégias de irrigação. Em uma delas, toda a água era aplicada ao amanhecer. Na segunda, o volume era dividido entre o amanhecer e o entardecer. Na terceira, toda a água era fornecida ao entardecer.
As plantas receberam quantidade suficiente de água durante o cultivo e não apresentaram sinais de déficit hídrico. Ainda assim, o momento da aplicação esteve associado a diferenças no desenvolvimento dos tomateiros.
Quando irrigadas pela manhã, as plantas direcionaram mais recursos para o crescimento vegetativo. Elas produziram mais folhas e acumularam maior quantidade de biomassa em estruturas como raízes e caules.
Já os tomateiros irrigados ao entardecer apresentaram desenvolvimento reprodutivo mais rápido e produziram mais frutos ao final do ciclo. Em algumas das linhagens avaliadas, a quantidade de massa seca de frutos obtida por litro de água também foi maior nesse tratamento.
A resposta, no entanto, não foi igual em todas as plantas. As características genéticas das linhagens influenciaram a maneira como elas reagiram aos diferentes horários de irrigação.
Metabolismo ajuda a explicar resultado

Para entender o que estava por trás das diferenças, a equipe analisou substâncias presentes nas folhas e a atividade de genes relacionados ao ritmo diário da planta e à formação de flores.
Entre os genes avaliados estava o SFT, associado à regulação do desenvolvimento reprodutivo do tomateiro. Nas plantas irrigadas ao amanhecer, os pesquisadores encontraram menor atividade desse gene e maior concentração de carboidratos nas folhas.
No tratamento com irrigação ao entardecer, os níveis de açúcares e amido nas folhas foram menores, ao mesmo tempo em que houve aumento na produção de frutos. Os resultados indicam que o horário em que a água chega à planta pode alterar a forma como os recursos gerados pela fotossíntese são utilizados e distribuídos.
A influência da genética também apareceu nessa etapa. Tomateiros com alteração no gene SFT apresentaram resposta diferente à irrigação ao entardecer, reforçando que o efeito do manejo pode depender das características da planta.
Resultado ainda precisa chegar ao campo
O experimento foi realizado em vasos e em casa de vegetação, utilizando a cultivar experimental Micro-Tom e linhagens empregadas em estudos sobre o funcionamento de genes específicos.
Por isso, os resultados não permitem estimar diretamente quanto uma lavoura comercial poderia produzir a mais caso a irrigação fosse transferida para o fim do dia. Antes de uma eventual recomendação aos produtores, serão necessários testes com cultivares comerciais e em diferentes condições de solo, clima e manejo.
A pesquisa amplia, porém, a compreensão sobre a relação entre irrigação e desenvolvimento do tomateiro. Além do volume e da frequência da água, o momento em que ela é aplicada pode interferir nos processos fisiológicos da planta e na destinação dos recursos entre folhas, raízes, caules e frutos.
O artigo Differential impact of dawn and dusk watering on tomato metabolism and biomass allocation reúne pesquisadores da UFV e do Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular de Plantas, na Alemanha, e foi publicado na revista Plant Physiology.
