Na Pousada Altoé da Montanha, Lúcio prepara o café da manhã em fogão a lenha diante dos hóspedes, transformando uma tradição herdada dos imigrantes italianos em uma experiência que atrai visitantes de todo o Brasil
Texto: Julio Huber / Foto de capa: Julio Huber
Publicado em 07/06/2026 às 17:14
Em cada fatia de socol, um pedaço da história dos imigrantes italianos. No aroma do café especial, gerações de agricultores que aprenderam a transformar trabalho em excelência. Nos queijos artesanais, a persistência de famílias que encontraram valor naquilo que produziam dentro de casa. Na polenta que chia sobre a chapa quente do fogão, receitas transmitidas de pais para filhos há mais de um século.
Separados, são apenas produtos. Juntos, contam a história de uma transformação capaz de mudar o destino de um município inteiro. Quem visita Venda Nova do Imigrante, nas montanhas do Espírito Santo, encontra paisagens, sabores e experiências que atraem turistas de todo o Brasil e do exterior. Mas o que tornou o município uma referência nacional vai muito além da gastronomia ou da beleza das montanhas. A verdadeira riqueza está nas pessoas.
Em um país marcado pelo êxodo rural, onde durante décadas milhares de jovens deixaram o campo em busca de oportunidades nas cidades, Venda Nova viveu um movimento diferente. Filhos e netos de agricultores não apenas permaneceram em suas propriedades, mas passaram a liderar e administrar cafeterias, agroindústrias, pousadas, cervejarias, restaurantes e experiências turísticas que unem tradição e inovação e fortalecem a sensação de pertencimento de quem ali vive.
Há administradores conduzindo negócios familiares, engenheiros de alimentos desenvolvendo novos produtos, baristas transformando cafés especiais em experiências sensoriais, netas assumindo empreendimentos iniciados pelas avós e jovens que saíram para estudar e decidiram voltar e dar continuidade ao legado da família.
Nada disso aconteceu por acaso. Há quase quatro décadas, famílias rurais começaram a perceber que a sobrevivência das pequenas propriedades dependeria de algo além da produção agrícola. Era preciso agregar valor ao que produziam, abrir as porteiras para os visitantes e transformar cultura, gastronomia e história em oportunidades de desenvolvimento não só para as suas famílias, mas para todo o território. Sem que percebessem, aquelas famílias estavam dando origem ao agroturismo.
Foto: Julio Huber
Produtos feitos por famílias de Venda Nova do Imigrante são apreciados pelos visitantes
Mas a prática já existia antes mesmo de receber um nome. “O agroturismo nasceu de algo muito simples: o jeito como as famílias italianas sempre viveram. Quando a gente fala de agroturismo, na verdade está falando de uma cultura de cooperação que já existia muito antes de receber esse nome”, resume Leandro Carnielli, uma das principais lideranças do movimento que transformou Venda Nova do Imigrante em referência nacional.
Foi justamente essa forma de viver que chamou a atenção do jornalista Ronald Mansur. No início da década de 1990, o então editor do Jornal do Campo, da TV Gazeta, retornou de uma viagem a Pádua, na Itália, impressionado com o agriturismo, modelo que integrava produção rural, cultura e recepção de visitantes. Ao percorrer as propriedades de Venda Nova do Imigrante, teve uma constatação surpreendente: aquilo já existia ali, ainda que ninguém o chamasse por um nome.
As famílias recebiam visitantes, comercializavam produtos artesanais e abriam as portas de suas propriedades para compartilhar tradições construídas ao longo de gerações. Ao reconhecer o potencial daquela experiência e levá-la para a televisão, Mansur ajudou a transformar uma prática cotidiana em um movimento organizado que ganharia projeção em todo o país sob um novo nome dado por ele: agroturismo.
“Meu objetivo era que a família rural produzisse mais oportunidades para continuar na propriedade”, recorda. Mais de três décadas depois, ele vê nos filhos e netos dos pioneiros a confirmação daquela aposta. Para Mansur, o maior legado do agroturismo não está no número de visitantes, nos restaurantes cheios ou no volume de negócios gerados: está na permanência das famílias no território.
Mas o sucesso dessa história também tem outra explicação. Nenhuma daquelas famílias caminhou sozinha. “O agroturismo deu visibilidade, mas o que sustentou esse crescimento foi a capacidade das pessoas de se organizarem, investirem juntas e acreditarem no lugar onde vivem”, afirma Cleto Venturim, empresário do setor turístico e presidente do Sicoob Sul-Serrano.
Hoje, Venda Nova do Imigrante é reconhecida como a Capital Nacional do Agroturismo. O título não apenas oficializa o município como sendo o berço desta atividade, mas reconhece um movimento que fortaleceu a agricultura familiar, preservou tradições centenárias, valorizou a identidade cultural de um povo e criou novas perspectivas para as futuras gerações.
Para contar essa história, a reportagem dos portais da Revista Negócio Rural e Montanhas Capixabas percorreu propriedades, ouviu pioneiros, conversou com lideranças e encontrou famílias que transformaram o agroturismo na principal fonte de renda de seus negócios. Histórias que ajudam a explicar como uma iniciativa nascida de forma simples, entre montanhas e tradições familiares, se transformou em um dos mais bem-sucedidos modelos de desenvolvimento rural do Brasil.
Onde nasceu uma revolução silenciosa no campo
Foto: Julio Huber
Leandro Carnielli e a esposa Albertina se orgulham do legado da família para o agroturismo
Quando os visitantes chegam hoje à propriedade da família Carnielli, em Pindobas, encontram queijos premiados, café especial, socol e uma estrutura que se tornou referência no agroturismo capixaba. O que poucos imaginam é que parte da história que transformou Venda Nova do Imigrante na Capital Nacional do Agroturismo começou justamente naquele quintal.
No final dos anos 1980, a família percebeu que a agricultura tradicional já não seria suficiente para garantir oportunidades às futuras gerações. Era preciso criar algo novo. A inspiração veio de um velho diário escrito pelo imigrante italiano Domenico Carnielli, bisavô de Leandro Carnielli, que relatava a produção de queijos para o consumo familiar.
A ideia parecia simples: produzir um queijo artesanal de qualidade. Na prática, exigiu aprendizado, mudanças de manejo e capacitação técnica. Nessa época, Pedro Carnielli era formado em Agronomia. Ele e o irmão Leandro chegaram a viajar para Minas Gerais em busca de conhecimento e voltaram com respostas que mudariam os rumos da propriedade.
Com o tempo, os queijos começaram a atrair visitantes. As pessoas chegavam para ver as vacas – que eram de uma raça diferente das existentes na região –, conhecer a produção e levar produtos para casa. Em 1992, o jornalista Ronald Mansur presenciou a movimentação e comparou a experiência ao modelo existente nas propriedades rurais italianas. Na reportagem exibida na semana seguinte em seu programa de TV, ele afirmou que ali estava nascendo o agroturismo capixaba.
“O agroturismo nasceu de algo muito simples: o jeito como as famílias italianas sempre viveram”
Leandro Carnielli – Empreendedor
Após a reportagem ir ao ar, o telefone da propriedade não parou mais de tocar. Mais de três décadas depois, a família observa uma transformação que vai além da geração de renda. O que mais os orgulha é ver jovens que antes deixavam o interior retornando para assumir os negócios familiares e construir seu futuro no campo. Leandro se tornou uma das principais lideranças do movimento que transformou o município em referência nacional.
“Meu pai produzia vinho artesanal, e pessoas de diversas regiões chegavam para comprar o produto. Não havia estrutura turística, nem placas, nem divulgação, havia apenas hospitalidade. Esse costume de receber pessoas fazia parte da própria formação cultural da comunidade, e isso é um dos fundamentos do agroturismo”, descreve.
Foto: Julio Huber
Leandro Carnielli se orgulha dos queijos premiados produzidos pela família
Essa característica ajuda a explicar por que o modelo prosperou na região. Quando os primeiros visitantes começaram a chegar à propriedade, Leandro percebeu que sozinho não conseguiria atender às expectativas dos turistas, que queriam experimentar geleias, conhecer a produção de socol, visitar outras propriedades e entender a cultura local. E assim um foi indicando o outro. Sem perceber, os produtores estavam construindo uma rede colaborativa de experiências rurais.
Entre as parcerias importantes para o sucesso da propriedade e do agroturismo, Leandro destaca o Sicoob. “Nós somos cooperados há mais de 30 anos e concentramos toda a movimentação financeira da propriedade no Sicoob. Também acessamos linhas de crédito que ajudaram nos investimentos e no crescimento. Nós não somos apenas clientes, somos donos, e os recursos ficam na região, financiam os empreendimentos locais e retornam para os próprios cooperados”, destacou.
Turistas de todo o Brasil e do exterior são atraídos pelo agroturismo
Foto: Julio Huber
Rônia e João Carlos se encantaram com os produtos e as histórias das famílias
Quase quatro décadas depois do início daquela caminhada, a Fazenda Carnielli continua recebendo visitantes, assim como as inúmeras outras propriedades que hoje oferecem não apenas produtos, mas experiências turísticas.
Esse legado passou a atrair visitantes de diferentes regiões do Brasil e até do exterior. Entre eles estão Rônia Abreu Custódia Teixeira, 59, e o procurador federal João Carlos Teixeira, 60, moradores de Niterói (RJ). “O agroturismo é o que mais me fascina. A gente mora em cidade grande e vem em busca das coisas da roça, do sossego, de boa conversa e histórias”, resume Rônia.
Para João, o encanto vai além das paisagens conhecidas da região. “A gente se encanta com o interior, com a tranquilidade e com a oportunidade de desfrutar dos produtos da roça, como o café, os queijos, o socol, a gastronomia”, afirma.
Hoteleiro abre as portas para o agroturismo e leva hóspedes até as propriedades
Foto: Divulgação
Luiz Perim, ao lado de Rosana Paste e Carmem Feitosa Altoé, são proprietários do Alpes Hotel
A consolidação desse modelo de negócio que surgia no município contou com parceiros estratégicos. Um dos primeiros foi o Alpes Hotel, que passou a levar hóspedes para conhecer as propriedades rurais da região. As visitas aconteciam em uma Kombi que percorria estradas do interior muito antes de existirem roteiros estruturados e as atuais estradas pavimentadas.
Aos poucos o movimento foi ganhando força, atraindo apoio de instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), cooperativas e associações locais.
Idealizador do Alpes Hotel, inaugurado no início dos anos 1990, Luiz Carlos Feitosa Perim percebeu desde cedo que o maior patrimônio turístico do município estava nas pessoas, na cultura e no modo de vida preservado pelas famílias rurais.
Enquanto muitos destinos apostavam em cachoeiras ou paisagens, ele enxergava valor nas histórias, nos sabores e nas tradições das comunidades do interior. "Algumas famílias se destacavam na produção de uma determinada iguaria: uma era referência em fazer queijo, outra em socol, outra em biscoitos. Assim construímos um roteiro de visita para levar os turistas até as propriedades", recorda Perim.
Perim também teve papel importante na organização do setor. O Alpes Hotel abriu espaço para sediar a Associação do Agroturismo de Venda Nova do Imigrante (Agrotur VNI), entidade criada para reunir os produtores pioneiros. No hotel também funcionou a primeira loja do agroturismo, um espaço coletivo onde pequenos produtores podiam divulgar e comercializar seus produtos.
Para ele, o grande legado do agroturismo foi criar novas oportunidades sem afastar as famílias de sua vocação agrícola. "O importante é que essas famílias rurais se mantiveram no campo e deram motivos para as novas gerações se interessarem em viver da propriedade", afirma.
Jornalista que deu nome ao agroturismo diz que objetivo foi alcançado
Era um dia comum de gravação de mais uma reportagem do Jornal do Campo, programa da TV Gazeta que fala de agricultura. Na direção estava o jornalista Ronald Mansur. Ele estava na propriedade da família Carnielli, quando percebeu algo que despertou sua atenção: visitantes chegavam para comprar os queijos produzidos pela família.
Imediatamente ele se lembrou do agriturismo, que ele conheceu em Pádua, na Itália, no ano de 1992. O modelo italiano que integrava agricultura, cultura, gastronomia e recepção de visitantes era idêntico ao que os descendentes de italianos de Venda Nova do Imigrante já realizavam de forma natural. O que faltava era uma identidade capaz de reunir todas aquelas iniciativas.
Foi então que Mansur começou a utilizar a expressão "agroturismo" para definir aquela prática. "O que nós fizemos foi organizar, divulgar e mostrar que aquilo era uma força da comunidade", relembra.
As famílias rurais pioneiras foram: Carnielli (com os queijos); Lorenção (com o socol); Cila Altoé (com os biscoitos e licores); e a alemã Josepha Müller, que produzia geleias com frutas sem agrotóxicos.
Foto: Arquivo/Leandro Carnielli
Capixabas foram algumas vezes até a Itália para conhecer de perto o agriturismo
O grupo era pequeno, mas carregava uma convicção que se mostraria decisiva para o futuro da região. Utilizando a força da televisão, Mansur passou a produzir reportagens mostrando as propriedades, os produtos e as histórias das famílias. As matérias exibidas provocavam um efeito imediato.
Ele se recorda de uma reportagem feita com Cacilda Lorenção sobre o socol. Ele acordou cedo em um domingo e foi até a propriedade da família assistir junto com eles a reportagem indo ao ar. “Enquanto a matéria era exibida, o telefone da propriedade não parava de tocar. Pessoas de diversas cidades ligavam interessadas em conhecer o produto e visitar a família. O movimento de visitantes foi intenso o dia inteiro”, relembra.
"O que nós fizemos foi organizar, divulgar e mostrar que aquilo era uma força da comunidade"
Ronald Mansur - Jornalista
ALTERNATIVA DE RENDA - Como geógrafo, Mansur acompanhava os efeitos do êxodo rural e enxergava no agroturismo uma alternativa para gerar renda sem expulsar as famílias do campo.
Ao observar a presença dos filhos e netos dos pioneiros administrando tantos empreendimentos, ele vê a confirmação daquela aposta. Mais do que criar um nome para uma atividade econômica, Ronald Mansur ajudou a construir uma narrativa capaz de transformar um modo de vida em patrimônio cultural, identidade territorial e estratégia de desenvolvimento para toda uma região.
Leandro Carnielli reforça essa visão. “Praticamente todas as propriedades ligadas ao agroturismo contam com filhos ou netos atuando nos empreendimentos, muitos deles formados em Administração, Agronomia, Turismo, Gastronomia e outras áreas. O resultado mais bonito foi perceber que os jovens não precisaram sair daqui para construir uma vida", afirma.
Socol ajudou a transformar memória em desenvolvimento
Foto: Julio Huber
Máximo e Cacilda Lorenção ajudaram a transformar o socol em referência nacional
Se Venda Nova do Imigrante carrega no nome a imagem da polenta, da tradição italiana e do socol, muito se deve ao casal Máximo e Cacilda Lorenção. Os dois ajudaram a construir a história do agroturismo e contribuíram para que quem vive nesse pedaço de terra nas montanhas capixabas sinta orgulho de pertencer a uma comunidade que cresceu com trabalho, empreendedorismo e cooperação.
Quem chega à propriedade da família, na localidade de Tapera, logo percebe que ali está uma das faces mais autênticas do agroturismo que ajudou a construir a identidade turística do município. Os visitantes chegam em busca do socol, produto que conquistou reconhecimento nacional e se tornou um dos símbolos da imigração italiana nas montanhas capixabas. Mas o que faz as pessoas permanecerem é algo muito maior: a experiência de conhecer uma família que transformou sua própria história em patrimônio cultural.
PRODUTO FAMILIAR - A tradição começou muito antes de existir turismo na região. Em uma época sem energia elétrica e sem geladeiras, as famílias do município precisavam encontrar formas de conservar os alimentos produzidos na propriedade. Foi nesse contexto que nasceu o socol, um embutido de carne suína elaborado originalmente para o consumo familiar. Cada família possuía seus próprios segredos e modos de preparo, transmitidos de geração em geração.
“Eu aprendi com meu pai. Ele fazia para a família e era tudo muito simples naquele tempo, mas era feito com muito amor. Depois que casei continuei fazendo do mesmo jeito que ele me ensinou e passei o ensinamento para meus filhos e netos”, conta Cacilda, com seu sorriso e alegria contagiante.
Foto: Arquivo/MCC&VB
O socol é um produto feito com a carne suína e fica seis meses pendurado antes de ser consumido
Durante décadas, a iguaria permaneceu restrita às mesas das famílias descendentes de italianos. A transformação começou quando amigos e visitantes passaram a experimentar o produto. “Meu filho Egnes começou a levar algumas peças do socol para o Centro do município em encontros com amigos. Eles começaram a pedir para comprar, e a fama do socol começou a se espalhar”, relembra Cacilda.
Aos poucos, o movimento aumentou. Sem planejamento formal e sem imaginar que participavam de uma revolução econômica no interior, os Lorenção começaram a receber pessoas interessadas não apenas no sabor do socol, mas também na cultura que existia por trás dele. Além do socol, na loja da propriedade são vendidos inúmeros sabores de antepastos, limoncello, geleias e outros produtos feitos pela família.
"Quem não tem tradição não tem vida"
Máximo Lorenção - Empreendedor
RECONHECIMENTO - A trajetória da família também ajuda a explicar um dos fenômenos mais importantes do agroturismo vendanovense: a transformação da cultura em ativo econômico. O socol deixou de ser apenas uma receita de família para se tornar um símbolo regional protegido por Indicação Geográfica (IG) – título concedido por meio do apoio do Sebrae/ES, fortalecendo ainda mais a economia local.
Para Máximo Lorenção, o verdadeiro legado não está apenas no reconhecimento do produto, mas na capacidade de transmitir às novas gerações a história de quem ajudou a construir uma identidade cultural que hoje atrai visitantes de todo o Brasil. Como ele costuma dizer, uma frase resume perfeitamente a essência do agroturismo local: "Quem não tem tradição não tem vida".
Uma propriedade centenária que ajudou a escrever a história do agroturismo
Foto: Julio Huber
Leomar, Maria Elisabeth e Reginaldo Caliman administram juntos a Fazenda Saúde
Administrada pelos irmãos Reginaldo, Leomar e Maria Elisabeth Caliman, a Fazenda Saúde pertence à mesma família desde 1892 e começou a receber visitantes em 1996, inicialmente com um pesque-pague, que hoje é pesque e solte. Aos poucos, vieram o bar, o restaurante e uma estrutura voltada para o lazer e o contato com a natureza.
Reginaldo Caliman, 72, esteve entre os empreendedores que participaram das visitas à Itália para conhecer experiências de agriturismo, movimento que ajudou a inspirar o desenvolvimento do setor nas montanhas capixabas. Segundo ele, a viagem serviu como referência para adaptar ideias à realidade local e aprimorar aquilo que já começava a surgir nas propriedades da região.
“Todo mundo precisa valorizar o seu negócio, mas também valorizar o do outro. Foi essa parceria que ajudou a fortalecer toda a região”, afirma.
Ao longo dessa trajetória, ele também destaca o papel de instituições como o Sebrae, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e o Incaper na capacitação dos empreendedores, e o apoio do Sicoob no fortalecimento dos negócios rurais.
Ela desafiou a família para entrar no agroturismo
Fotos: Julio Huber
Ana Joana e o marido Clarindo Brioschi abriram a propriedade para receber turistas
Quando Ana Joana Brioschi, 82, decidiu ingressar no movimento do agroturismo, o setor ainda engatinhava em Venda Nova do Imigrante. A decisão gerou dúvidas até dentro da própria família, pois ela já tinha uma rotina intensa dividida entre a produção rural e os cuidados com a casa. Mesmo assim, ela aceitou o desafio.
“Meu filho não queria que eu entrasse no agroturismo porque eu ajudava muito na roça. Mas depois de alguns convites, entrei. Quando falei com minha família, eles ficaram doidos, mas com fé em Deus eu enfrentei. Dias depois participamos de uma feira que inauguraram na cidade e vendemos tudo o que levamos. Aí ficamos animados”, contou.
Nessa época, segundo ela, já existia o agroturismo há uns dois anos. “Começamos colocando uns vinhos de jabuticaba na lojinha de agroturismo, onde eu ajudava a trabalhar. Na época, eu produzia umas 20 peças de queijo por dia”, relembra. Com o tempo e com o apoio do marido Clarindo Brioschi, 88, e do restante da família, eles abriram a própria loja na propriedade.
Neta dá continuidade ao legado da família
Ao lado dos avós, Priscila continua o legado da família Brioschi no agroturismo
Ao ver a empolgação da avó, a neta Priscila, então com apenas 10 anos, ofereceu ajuda. O envolvimento começou de forma espontânea, acompanhando as atividades do dia a dia. Com o passar dos anos, a menina cresceu junto com o empreendimento. Hoje, é ela quem conduz boa parte das atividades do negócio familiar.
Filho convenceu a família a reinventar a tradição do café e cria experiência turística
Foto: Julio Huber
Toda a família Zandonade se envolve nos processos de produção e de receber os visitantes na propriedade
Durante décadas, a propriedade dos Zandonade, em Bela Aurora, seguiu a lógica tradicional da agricultura familiar. O café era produzido com dedicação, mas vendido como uma commodity. A mudança começou com uma inquietação típica da nova geração.
Enquanto ajudava os pais na lavoura e na produção de hortaliças, Luiz Felipe Zandonade, 29, percebia que aquele modelo tinha limitações. A renda era apertada, e o esforço nem sempre era recompensado. Foi então que, por volta de 2015, começou a pesquisar, estudar e se qualificar sobre cafés especiais. Ele descobriu um universo completamente diferente daquele que conhecia.
Luiz Felipe convenceu os pais, Luiz Carlos Zandonade, 61, e Marli Andreão Zandonade, 56. Ele buscou conhecimento, procurou instituições como o Incaper e o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), fez cursos e começou a entender o que diferenciava um café comum de um café especial. Era preciso muito aprendizado para poder administrar a propriedade como um negócio. Em poucos anos, os cafés da família começaram a alcançar pontuações elevadas e reconhecimento de mercado.
TURISMO DE EXPERIÊNCIA - O passo seguinte foi ainda mais ousado: lançar uma marca própria. Em plena pandemia da Covid-19, a família decidiu assumir todo o processo, da lavoura à comercialização. A estratégia aumentou a margem de lucro, fortaleceu a identidade do produto e aproximou os consumidores da origem do café. “Depois de planejar, eu sabia que a gente não ia começar algo para dar errado”, lembra Luiz Felipe.
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A inovação transformou a propriedade rural em experiência para turistas do Brasil e de outros países
Depois os clientes passaram a querer conhecer a propriedade, conhecer a história por trás de cada xícara, entender os processos e viver experiências ligadas ao universo dos cafés especiais. Foi quando a família abriu as portas, e com o apoio do Sebrae/ES, estruturou a experiência turística que virou sucesso.
Na propriedade o turista pode agendar uma visita guiada à lavoura e conhecer todo o processo até o café chegar à xícara. E em períodos de colheita, os grãos coletados pelos visitantes são secados, beneficiados e enviados pelo correio, com a foto da pessoa colhendo seu café na lavoura estampada na embalagem. Um antigo casarão da propriedade foi estruturado como uma boutique de cafés, onde os visitantes podem conhecer a torrefação e participar de experiências sensoriais.
Além de Luiz Felipe, a irmã Tatiana também tem papel fundamental. Mesmo morando em Vitória, ela participa da organização das experiências que são feitas das lavouras até a cafeteria e do atendimento aos visitantes. A transformação da propriedade é um exemplo de que como conhecimento, gestão e inovação podem agregar valor à produção rural sem a necessidade de ampliar um único hectare de terra.
FUTURO - Os netos já fazem parte do cotidiano da propriedade, crescendo em meio às lavouras e às transformações que ali acontecem. O novo negócio ainda contribuiu para que Luiz Felipe conhecesse a esposa, Júlia Simões Lopes dos Santos, quando ele era entrevistado em um programa de TV. Eles se casaram, e ela saiu da cidade imediatamente para a propriedade. “Aqui é outra realidade. É mais tranquilo, mais leve. Quando eu vou para a cidade, já quero voltar”, afirma Júlia.
Professora transformou frutas que se perdiam no pomar em negócio da família
Após 33 anos atuando como professora de educação infantil em Pindobas, Maria Dalva Andreão, 65, acreditava que a aposentadoria traria uma rotina mais tranquila. Mas foi justamente nesse período que nasceu um novo empreendimento. Incomodada ao ver frutas amadurecendo e se perdendo na propriedade da família, ela e o marido, Aquilino Andreão, 70, começaram a produzir geleias artesanais.
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O pé de moleque de macadâmia se transformou no carro-chefe da propriedade
O que começou de forma simples logo conquistou visitantes e se transformou no Angar Sítio Jabuticabeira, referência na produção de geleias, compotas, licores, doces e do tradicional pé de moleque de macadâmia, um dos produtos mais procurados pelos turistas.
Hoje, o negócio envolve toda a família e se tornou a principal fonte de renda da propriedade. “Temos 13 sabores de geleias, além de compotas, goiabada cascão, doce de leite, licores e diversos outros produtos”, enumera Maria Dalva.
A ousadia que transformou meeiros em empresários do turismo
Foto: Julio Huber
Maria Elizete e José Rubens criaram pousada, restaurante e estimularam novos empreendimentos na região
A trajetória de Maria Elizete Botacini e José Rubens Dalvi é um retrato de como o empreendedorismo ajudou a moldar o agroturismo em Venda Nova do Imigrante. O casal começou a vida como meeiro, cultivando terras de terceiros e construindo seu patrimônio a partir da comercialização de hortifrutigranjeiros.
Ao longo dos anos, adquiriram áreas na comunidade de Bela Aurora, onde Rubens enxergou um potencial que poucos conseguiam ver. Mesmo sem experiência no setor turístico, decidiu investir em uma pousada. Foram anos de preparação até a inauguração dos primeiros chalés, em 2010. No ano seguinte veio o restaurante Bela Aurora, que rapidamente se tornou uma referência gastronômica e turística da região.
O sucesso do empreendimento ajudou a impulsionar o desenvolvimento da comunidade, atraindo novos investimentos e fortalecendo Bela Aurora como um dos polos turísticos de Venda Nova do Imigrante. Para o casal, o crescimento do turismo sempre esteve ligado à cooperação. “Tem público para todo mundo. A gente tem que ser parceiro, não concorrente”, resume Elizete.
NOVA GERAÇÃO - A filha mais nova do casal, Elisa Dalvi, formada em Ciência e Tecnologia de Alimentos pelo Ifes, transformou uma experiência iniciada durante a graduação em um novo negócio. Instalada no mesmo complexo da pousada e do restaurante, a Aurora Cervejaria nasceu de produções artesanais feitas em pequena escala e se consolidou como uma marca reconhecida, acumulando mais de 20 medalhas em concursos especializados.
A família que transformou tradição em experiência e encontrou no turismo um caminho para o futuro
Foto: Julio Huber
Lúcio prepara o café da manhã em um fogão a lenha sob os olhares dos hóspedes
O som do ovo fritando no fogão a lenha se mistura ao aroma da banana e do palmito colhidos na propriedade, ao lado da pizza de polenta, do queijo, da linguiça e do pão. Na mesa, bolos, biscoitos, geleias e outras gostosuras estão ao lado da garrafa de café, também colhido na propriedade e que já exala seu aroma pelo ambiente, convidando o visitante para sentar-se à mesa e degustar um verdadeiro banquete.
Essa autêntica experiência gastronômica e turística que é o café da manhã da Pousada Altoé da Montanha, em Tapera, Venda Nova do Imigrante, se completa com o bate-papo com Lúcio, que comanda o fogão a lenha, e com Dulce, que sempre vem da cozinha com uma surpresa.
Mas muito antes dos aconchegantes chalés e do reconhecimento como referência no turismo, a rotina da família Altoé começava ainda de madrugada. O casal preparava pães, bolos, doces, geleias e outros produtos artesanais para vender nas feiras de Vitória.
Com o passar dos anos, muitos clientes começaram a demonstrar interesse em conhecer o lugar onde aqueles produtos eram feitos. O que parecia apenas curiosidade revelou uma oportunidade de negócio. “A gente contava uma história verdadeira. O cliente podia vir aqui conferir tudo”, conta Dulce.
Primeiro surgiu uma pequena loja rural na propriedade, e a movimentação cresceu rapidamente. Excursões vindas principalmente de Vitória passaram a incluir a propriedade nos roteiros turísticos.
Mesmo enfrentando dificuldades financeiras no início da vida, Lúcio e Dulce sempre acreditaram que viajar também fazia parte do aprendizado. E inspirado em experiências observadas em Gramado (RS), nasceu o café colonial instalado ao lado da BR-262, que corta o município. Mais tarde vieram a pousada e as experiências turísticas que transformariam a propriedade em uma das referências do agroturismo capixaba.
PIONEIRISMO - Foi nesse processo que surgiu um dos produtos mais emblemáticos da região: a pizza de polenta. Inspirada em um dos alimentos mais tradicionais da cultura dos imigrantes italianos, a receita se tornou um dos principais atrativos da propriedade e do café colonial.
Foto: Julio Huber
A pizza de polenta criada por Dulce se tornou uma das queridinhas de quem visita Venda Nova do Imigrante
Ao longo da trajetória, a família destaca o papel de instituições parceiras no fortalecimento do agroturismo. “O Sebrae foi fundamental para abrir a nossa visão. Já o apoio do Sicoob foi o pontapé inicial para a gente sair da cozinha de casa e montar a agroindústria, porque quando projetamos algo para o futuro, precisamos do recurso”, lembra.
PROFISSIONALIZAÇÃO - Enquanto a filha Lara, 24, levou para a Itália os conhecimentos adquiridos na propriedade e construiu sua trajetória profissional na gastronomia, Pedro, 22, decidiu permanecer em Venda Nova do Imigrante e investir no crescimento dos negócios da família.
Além de atuar diretamente nos empreendimentos, ele busca qualificação. Atualmente, cursa Administração de Empresas no Ifes, com o objetivo de contribuir para a gestão e a inovação dos negócios. “O que aprendo soma muito para o trabalho do dia a dia e sempre consigo ir aperfeiçoando”, afirma.
A escolha de Pedro mostra como os filhos dos pioneiros do agroturismo não apenas permanecem no campo, mas assumem o protagonismo dos negócios, incorporando conceitos de gestão, planejamento e inovação para garantir a sustentabilidade das propriedades familiares. Assista, abaixo, a um vídeo em que a família fala um pouco mais sobre seus empreendimentos e sobre o futuro.
Edição: Bruno Faustino
Turistas em busca de autenticidade
A experiência construída pela família Altoé ajuda a explicar por que o agroturismo de Venda Nova do Imigrante atrai visitantes de diferentes regiões do Brasil. Hospedados na Pousada Altoé da Montanha durante uma viagem pelas montanhas capixabas, o engenheiro Renato Pestana de Abreu, 44, e a redatora técnica Laísa Ribeiro, 38, saíram de Indaiatuba (SP) e encontraram muito mais do que as belas paisagens da região.
“Ficamos impressionados com a paisagem, com as montanhas e também com a organização do agroturismo. O que mais valorizamos foi a possibilidade de visitar as propriedades, conhecer os produtores e entender como tudo é feito”, relata Laísa.
Renato destaca as experiências que tornaram a viagem ainda mais marcante. “Eu sou apaixonado por polenta e nunca tinha encontrado algo parecido com a pizza de polenta que experimentamos aqui. Aqui a gente não se sente apenas cliente, a gente se sente acolhido pelas famílias e pelas histórias que cada lugar carrega. Não é algo criado para o turista, é a própria história das famílias sendo compartilhada”, resume o visitante.
Quando a comida dos imigrantes virou patrimônio cultural
Foto: Mosaico Imagem
O tombo da polenta gigante é um dos principais atrativos do principal evento da região
Se o agroturismo ajudou a abrir as porteiras das propriedades rurais para os visitantes, a Festa da Polenta teve papel fundamental na divulgação da identidade cultural que sustenta esse movimento.
Criada há 37 anos pela Associação Festa da Polenta (Afepol), a celebração surgiu para valorizar um alimento que durante décadas foi a base da alimentação das famílias descendentes de imigrantes italianos. O que começou como uma homenagem às origens da comunidade se transformou na maior festa de tradição italiana do Espírito Santo e em uma das principais vitrines turísticas de Venda Nova do Imigrante.
Presidente da Afepol, Tarcísio Caliman destaca que a polenta simboliza muito mais do que um prato típico, ela representa a história das famílias que chegaram à região há mais de um século e construíram sua vida a partir do trabalho na terra.
Foto: Julio Huber
Tarcísio Caliman ressalta que a culinária e as tradições são os principais elementos do agroturismo
“Era um alimento de subsistência. Nossos antepassados comiam polenta de manhã, no almoço e à noite. Hoje ela se transformou em um produto valorizado pelos turistas e em um símbolo da nossa cultura”, afirma.
Leis ajudaram a transformar tradição em oportunidade de negócio
Foto: Julio Huber
Marco Grillo apresentou o projeto de lei que criou o Serviço de Inspeção Municipal
A história do agroturismo em Venda Nova do Imigrante não foi construída apenas pelo empreendedorismo das famílias rurais. Ao longo das últimas décadas, avanços na legislação ajudaram a transformar produtos artesanais em oportunidades de renda, criando segurança jurídica para os empreendedores e ampliando mercados para as agroindústrias familiares.
Uma das pessoas que acompanhou esse processo desde o início foi Marco Antônio Grillo. Ex-vereador por sete mandatos, ex-secretário municipal de Cultura e Turismo, integrante da Associação Brasileira de Turismo Rural (Abraturr) e atual representante do turismo rural brasileiro no Conselho Nacional de Turismo (CNT), ele esteve entre os defensores de medidas que ajudaram a organizar e fortalecer o setor.
Em 1994, apresentou o projeto que criou o Serviço de Inspeção Municipal (SIM), iniciativa que permitiu regularizar a produção artesanal e garantir mais segurança aos consumidores. Para Grillo, o crescimento do agroturismo sempre precisou caminhar junto com a construção de mecanismos que dessem respaldo legal aos empreendedores.
Entre as importantes parcerias para o desenvolvimento do setor, Marco Grillo enaltece a importância do Sebrae/ES. “Desde a época em que montamos o SIM, tivemos a assessoria do Sebrae/ES. Eu sempre falo que o Sebrae foi a nossa Secretaria de Turismo, diante de tanto apoio ao setor”, destacou.
LEIS FEDERAIS - Entre os avanços mais importantes para as agroindústrias familiares do Brasil está o Selo Arte, criado a partir da Lei nº 13.680, de autoria do deputado federal capixaba Evair de Melo. A legislação representou uma mudança histórica para milhares de produtores artesanais brasileiros ao permitir que alimentos de origem animal produzidos de forma artesanal, como queijos, embutidos, mel, pescados e derivados de leite, pudessem ser comercializados em todo o território nacional, desde que atendidos os requisitos sanitários exigidos.
Foto: Divulgação/Câmara Federal
Evair de Melo mora em Venda Nova do Imigrante e é autor de leis que beneficiam o agroturismo
Antes da criação do Selo Arte, muitos produtos tradicionais enfrentavam limitações para ultrapassar as fronteiras estaduais, mesmo quando possuíam qualidade reconhecida pelos consumidores.
No Espírito Santo, um dos primeiros produtos beneficiados foi justamente o socol, símbolo da imigração italiana e um dos ícones do agroturismo de Venda Nova do Imigrante.
Outro marco foi a sanção da Lei nº 14.636, também de autoria de Evair de Melo, que conferiu oficialmente a Venda Nova do Imigrante o título de Capital Nacional do Agroturismo. A legislação reconheceu nacionalmente uma trajetória iniciada nas pequenas propriedades rurais das montanhas capixabas e consolidou o município como referência brasileira no setor.
Morador de Venda Nova do Imigrante e profundo conhecedor da realidade rural da região, Evair acompanhou de perto a evolução do movimento. Filho de pequenos agricultores, ex-secretário municipal de Agricultura e ex-presidente do Incaper, ele viu o agroturismo crescer, ganhar relevância econômica e se transformar em modelo para outras regiões do país.
Hoje, produtos que antes eram comercializados apenas nas propriedades ou em mercados locais chegam a consumidores de diferentes regiões do Brasil, agregando valor à produção familiar e ampliando a renda das comunidades rurais.
O agroturismo transformou as montanhas em um dos principais destinos turísticos do Espírito Santo
Foto: Julio Huber
Valdeir Nunes, criador do China Park Eco Resort, ressalta a importância do agroturismo como atrativo turístico estadual
Se há alguém que acompanhou a transformação do turismo nas montanhas capixabas sob diferentes perspectivas, esse alguém é Valdeir Nunes. Empresário, fundador do China Park Eco Resort, presidente do Conselho Estadual de Turismo (Contures) e do Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau, ele viu a região se tornar um dos destinos turísticos mais consolidados do Espírito Santo e do país.
“O agroturismo valorizou a cultura, a gastronomia, os produtos artesanais e o jeito de receber das famílias. Ele ajudou a transformar as montanhas em um destino turístico reconhecido. E certamente o movimento de turistas que buscam esse agroturismo contribui para o setor em todo o Estado, pois esse modelo se espalhou pelo Espírito Santo”, destacou.
Segundo ele, o turista não viaja para conhecer apenas um lugar, ele quer viver experiências. “O agroturismo criou esse ambiente onde um empreendimento ajuda o outro e todos crescem juntos”, afirma.
“O agroturismo valorizou a cultura, a gastronomia, os produtos artesanais e o jeito de receber das famílias"
Valdeir Nunes - Empresário
Primeiro resort do Espírito Santo
Inaugurado há mais de duas décadas, o China Park Eco Resort acompanhou e contribuiu para esse processo de fortalecimento do turismo regional. Recebendo visitantes de diversas partes do Brasil ao longo de todo o ano, o empreendimento se tornou uma importante porta de entrada para as montanhas capixabas.
“O China Park recebe pessoas de todo o Brasil. Quando elas chegam aqui, mostramos que existe muito mais para conhecer nas montanhas capixabas”, explica.
FUTURO - Valdeir acredita que as montanhas capixabas ainda vivem um processo de crescimento. Entre os fatores que devem impulsionar esse desenvolvimento nos próximos anos está a implantação do aeroporto regional das montanhas, que será construído em Venda Nova do Imigrante.
Administrador transformou uma propriedade rural em destino turístico
Foto: Julio Huber
Lorival Douro criou o primeiro beijandário do Estado na sua propriedade rural
A influência do agroturismo de Venda Nova do Imigrante ultrapassou as divisas do município e ajudou a inspirar empreendedores em diversas regiões do Espírito Santo. Um deles é Lorival Douro, 36, administrador de formação e idealizador do Dom Douro Agroturismo, localizado em Domingos Martins, nas margens da rodovia que liga a BR-262 ao China Park Eco Resort.
Durante anos, a propriedade foi dedicada à produção agrícola, especialmente de hortaliças. A beleza das lavouras, principalmente dos extensos campos de alface, chamava a atenção de visitantes que frequentemente paravam para fotografar e perguntavam se ele tinha morangos para vender. Aos poucos, Lorival percebeu que havia ali uma oportunidade.
A pandemia da Covid-19 acelerou esse processo. “Empreender, para mim, é solucionar problemas que outras pessoas encontram. Na pandemia, as pessoas procuravam um lugar para trazer a família, viver uma experiência diferente e estar em contato com a natureza. Foi isso que buscamos oferecer aqui”, afirma.
O que começou com visitas espontâneas foi se transformando em um empreendimento estruturado, com espaços para contemplação, experiências no campo e atrações que valorizam a conexão das pessoas com a natureza.
BEIJANDÁRIO - O principal símbolo dessa proposta é o Beijandário, considerado o único do Espírito Santo. Inspirado no sucesso dos lavandários existentes na região e em outros locais do país, Lorival decidiu criar um grande jardim dedicado exclusivamente à flor conhecida como beijo, espécie que floresce durante praticamente todo o ano. O resultado foi um cenário que rapidamente se tornou procurado por turistas, fotógrafos, noivas, gestantes e famílias em busca de registros especiais.
Foto: Julio Huber
O local é procurado para ensaios fotográficos e atrai olhares de turistas de todo o país
“A ideia era criar algo que as pessoas não encontrassem em nenhum outro lugar. Um espaço para criar memórias e eternizar momentos”, explica. A procura superou as expectativas e transformou o Beijandário em uma das principais atrações do empreendimento, reforçando uma característica comum aos negócios ligados ao agroturismo: a capacidade de inovar sem perder a ligação com o ambiente rural.
Formado em Administração, Lorival atribui parte desse crescimento ao conhecimento adquirido na faculdade. Segundo ele, a formação ajudou a desenvolver uma visão mais estratégica do negócio, permitindo planejar investimentos, interpretar resultados e identificar oportunidades.
“A Administração abre a mente da gente. Você aprende a interpretar informações, planejar e olhar para o futuro. Isso ajuda a tomar decisões melhores e a antecipar as necessidades do mercado”, afirma. Na propriedade, a família produz geleias, tortas e tem uma loja com diversos produtos do agroturismo. O espaço funciona em um galpão que antes era garagem de máquinas e foi adaptada para receber os visitantes.
Sicoob e Sebrae foram parceiros estratégicos
Foto: Julio Huber
O contato próximo da equipe do Sicoob é um dos diferenciais apontados por Lorival
Lorival faz questão de enfatizar a participação de parceiros que ele julga fundamentais para o crescimento do Dom Douro. Um deles foi o Sebrae/ES, que auxiliou na criação e registro da marca, no desenvolvimento dos rótulos dos produtos e em diversos processos de estruturação do negócio. “O Sebrae foi fundamental. Nos ajudou desde o início e é uma parceria que continua até hoje”, destaca.
Ele também contou com o apoio do Sicoob Sul-Serrano. Cooperado há anos, ele afirma que a relação próxima com a cooperativa foi decisiva para viabilizar investimentos e dar segurança ao crescimento do empreendimento. “O que mais me chama a atenção é o contato humano. Você conhece as pessoas, tem acesso ao gerente e cria uma relação de confiança. Isso faz toda a diferença para quem empreende”, afirma.
A gerente de Relacionamento e Negócios do Sicoob Sul-Serrano, Cleudimar Minete Peterle, a Cleo, destaca que histórias como a de Lorival demonstram como o cooperativismo contribui para o fortalecimento dos empreendimentos rurais e turísticos.
“O desenvolvimento acontece quando as pessoas têm condições de investir, inovar e profissionalizar seus negócios. O cooperativismo contribui justamente criando essas oportunidades e mantendo os recursos circulando na própria região, fortalecendo toda a economia local”, afirma.
Cooperativismo ajudou a transformar o agroturismo em desenvolvimento
Foto: Sicoob/Divulgação
Presidente do Sicoob Sul-Serrano, Cleto Venturim viu o surgimento do agroturismo e destaca o apoio da cooperativa ao setor
Empresário do setor turístico e presidente do Sicoob Sul-Serrano, Cleto Venturim acompanhou de perto a evolução do agroturismo em Venda Nova do Imigrante e região. Sua família administra o Hotel Esmig desde a década de 1970, período em que o município já recebia visitantes atraídos pela gastronomia, pelos produtos artesanais e pelo modo de vida das famílias rurais.
Para ele, o agroturismo não surgiu de um projeto planejado, mas da própria cultura das comunidades locais. “O que aconteceu depois foi a organização e a valorização desse potencial”, afirma.
Na avaliação dele, o crescimento do agroturismo só foi possível porque houve organização coletiva. Produtores rurais, agroindústrias familiares, associações, cooperativas e instituições parceiras passaram a atuar de forma integrada, criando um ambiente favorável para investimentos e profissionalização dos negócios.
Nesse processo, o cooperativismo de crédito teve papel decisivo. Ao longo das últimas décadas, centenas de famílias investiram na ampliação de agroindústrias, construção de pousadas, implantação de cafeterias, aquisição de equipamentos e criação de novos empreendimentos ligados ao turismo rural.
“Os empreendimentos precisavam investir, crescer e se modernizar. O cooperativismo ajudou justamente a criar essas condições, porque os recursos captados aqui retornam para financiar os negócios da própria região”, destaca.
A força desse modelo pode ser percebida nos números. Em Venda Nova do Imigrante, município com cerca de 25 mil habitantes, o Sicoob reúne mais de 17 mil cooperados, demonstrando a relevância da instituição para a economia local.
Assista, abaixo, a um vídeo em que Cleto fala mais da participação do Sicoob no crescimento do agroturismo regional.
Edição: Bruno Faustino
Caminhos pavimentados abriram novas oportunidades para o turismo rural
Foto: Arquivo/Seag
O programa Caminhos do Campo facilita o acesso a comunidades do interior capixaba
A melhoria da infraestrutura rural teve papel decisivo no crescimento do agroturismo no Espírito Santo. Um dos exemplos mais emblemáticos é o programa Caminhos do Campo, criado pelo Governo do Estado em 2003, quando o atual governador Ricardo Ferraço ocupava a Secretaria de Estado da Agricultura. A iniciativa foi desenvolvida para pavimentar estradas rurais, melhorar o escoamento da produção agrícola e ampliar a mobilidade das comunidades do interior.
O primeiro trecho pavimentado pelo programa foi a Rota do Lagarto, em Pedra Azul, Domingos Martins, hoje um dos principais cartões-postais turísticos do Espírito Santo. Com estradas mais seguras e acessíveis, aumentou o fluxo de visitantes, surgiram novos empreendimentos e diversas comunidades passaram a integrar roteiros turísticos.
Muitas das estradas pavimentadas se transformaram em circuitos turísticos, ligando pousadas, cafeterias, agroindústrias familiares, restaurantes e propriedades de agroturismo. Segundo dados oficiais, o programa já ultrapassou a marca de mil quilômetros de estradas rurais pavimentadas.
Assista, abaixo, a uma entrevista do govenador em que ele fala um pouco mais sobre a importância do Caminhos do Campo e também do agroturismo para a economia das famílias capixabas.
Edição: Bruno Faustino
Gestão, inovação e experiência: os desafios para a próxima geração do agroturismo
Foto: Arquivo pessoal
Professor e conselheiro do CRA-ES, Luiz Carlos de Araújo dá dicas para os empreendedores crescerem e inovarem
Se a tradição ajudou a construir o agroturismo, a capacidade de inovar será decisiva para garantir seu futuro. Essa é a avaliação do professor universitário, consultor empresarial e conselheiro do Conselho Regional de Administração do Espírito Santo (CRA-ES), Luiz Carlos de Araújo.
Ao analisar a trajetória dos empreendimentos das montanhas capixabas, ele observa que muitos dos casos de sucesso têm algo em comum: continuaram a evoluir baseados em planejamento e gestão. Segundo o especialista, o maior risco para qualquer negócio é acreditar que aquilo que deu certo no passado continuará funcionando para sempre da mesma forma.
“O empreendedor precisa estar disposto a se reinventar continuamente. O mercado muda, o comportamento do consumidor muda, e as expectativas dos turistas também mudam. Quem não acompanha essas transformações acaba ficando para trás”, afirma.
O que se vê no perfil do turista que visita a região é que ele não busca apenas comprar um café, um biscoito ou um queijo, ele quer conhecer a história por trás do produto, conversar com quem produz e vivenciar o cotidiano da propriedade.
É justamente nesse contexto que o turismo de experiência ganha importância crescente.
“Quem fabrica biscoito certamente ampliaria seu negócio e teria mais lucro se passasse a proporcionar uma experiência em que as crianças produzissem seus próprios biscoitos, por exemplo”, sugere.
Na avaliação do professor, esses exemplos demonstram que o sucesso está menos relacionado ao tamanho do negócio e mais à capacidade de gerar valor para quem visita. Além da inovação, Luiz Carlos destaca a qualificação permanente como um dos pilares para a prosperidade dos empreendimentos rurais.
“Conhecimento nunca é gasto, é investimento. Quem busca capacitação consegue enxergar oportunidades, identificar tendências e tomar decisões com mais segurança. E não estou falando apenas de curso superior, mas entidades como Sebrae, Senar, Senac e outras que oferecem capacitações importantes”, afirma ele, destacando ainda a necessidade de um planejamento regional do turismo para os próximos anos.
Polo Sebrae de Turismo de Experiência projeta modelo capixaba para todo o Brasil
Foto: Thiago Guimarães
O Distrito Turístico de Pindobas abriga o Polo Sebrae de Turismo de Experiência
Um novo capítulo do agroturismo de Venda Nova do Imigrante e do turismo capixaba começou a ser escrito com a criação do Polo Sebrae de Turismo de Experiência, cuja sede está instalada na Casa Nostra, no Distrito Turístico de Pindobas. Criado em 2024, foi oficializado este ano pelo Governo do Estado como o primeiro distrito turístico do Espírito Santo.
A iniciativa nasceu a partir de um modelo estruturado de desenvolvimento territorial que integra capacitação profissional, promoção turística, inovação e criação de experiências. O objetivo é transformar cultura, gastronomia, história e modos de vida em oportunidades de desenvolvimento econômico, fortalecendo os empreendimentos locais e tornando o destino mais competitivo.
Um dos atrativos do complexo é a Casa Nostra. O espaço reúne exposições sobre a imigração italiana, experiências culturais e gastronômicas e atividades voltadas ao turismo pedagógico. Desde sua inauguração, tem recebido visitantes de diversas regiões do Brasil e até do exterior, atraídos pela autenticidade das experiências oferecidas. No local também fica a loja-conceito, que oferece produtos do agroturismo local.
Segundo o superintendente do Sebrae/ES, Pedro Rigo, a escolha de Venda Nova do Imigrante para sediar o Polo foi consequência de uma trajetória de sucesso construída pelas famílias rurais. “Nós focamos no turismo que conecta pessoas e convida o visitante a se encontrar com o Espírito Santo”, destaca.
A gestora do Polo, Renata Vescovi, ressalta que o Espírito Santo passou a ocupar posição de protagonismo no turismo de experiência brasileiro. “Para o Espírito Santo significa muito estar na vanguarda do turismo de experiência, aplicando os conhecimentos para os empreendedores do turismo”, afirma.
Projeto escolar estimula pertencimento, inovação e sucessão familiar
Foto: Arquivo pessoal
Os estudantes conhecem mais sobre o município e aprendem a valorizar a cultura e os produtos locais
Uma das grandes conquistas do agroturismo em Venda Nova do Imigrante foi criar oportunidades para que filhos e netos de agricultores permanecessem no campo. Mas a sucessão familiar não acontece apenas quando um jovem assume uma cafeteria, uma pousada ou uma agroindústria, ela começa muito antes, quando crianças aprendem a valorizar a história, a cultura e o território onde vivem.
Na Coopeducar, escola cooperativa do município, esse trabalho tem sido desenvolvido há seis anos por meio do projeto Toda Cidade Tem História. A iniciativa leva estudantes a conhecerem as origens de Venda Nova do Imigrante, suas personalidades, tradições, grupos de voluntariado e empreendimentos ligados ao agroturismo.
Professora responsável pelo projeto, Sandra da Silva afirma que uma das principais transformações observadas ao longo dos anos é o fortalecimento do sentimento de pertencimento. “Quanto mais elas conhecem a história do lugar onde vivem, mais valorizam e mais querem preservar essa memória. As crianças passam a olhar para os produtos, para as famílias e para as tradições com outros olhos”, explica.
Se o agroturismo nasceu da coragem de famílias que abriram as porteiras de suas propriedades há quase quatro décadas, sua continuidade depende das crianças que hoje aprendem que aquela história também lhes pertence.