Devastação ambiental continua alarmante, mas a boa notícia é que a pecuária tem a solução

Marisa Sevilha Rodrigues é jornalista , CEO da agência Táxi Blue e idealizadora do portal Boi a Pasto.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 de junho último, infelizmente, as notícias não foram das melhores para o Brasil, pois os números divulgados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre a devastação no mês de maio informaram que houve 49% a mais de queimadas em relação a maio do ano passado, só na Amazônia Legal. A preocupação dos especialistas faz todo o sentido, uma vez que ainda estamos no começo de junho, e já temos esses números bem alarmantes, imagine-se quando chegarmos a setembro e outubro, tendo que enfrentar no período o auge da seca. Se nada for feito para conter esse avanço absurdo das queimadas, as consequências poderão ser catastróficas.

E, de novo, e mais uma vez, nesses dois anos de Governo bolsonarista, não podemos ter esperanças de que algo melhore neste sentido. Senão, vejamos: onde está o Ministro do Meio Ambiente, senhor Ricardo Salles, que sequer fez um pronunciamento oficial no Dia do Meio Ambiente, preocupado só em se defender das acusações de envolvimento no escândalo de envio ilegal de madeira para os Estados Unidos? A notícia explosiva, aparentemente, pegou o Ministro de calças curtas, e ele desapareceu da mídia. Não deu entrevistas, e se isolou, preocupando-se unicamente em apresentar suas defesas, e deixando o ministério ao deus-dará, nesse período. O que não faz muita diferença, porquê como todos sabemos, suas intenções são de “passar a boiada”, como ele mesmo se expressou numa reunião gravada em vídeo, no Planalto, junto com outros ministros e até mesmo o presidente Bolsonaro, demonstrando claramente seus interesses escusos em relação ao Meio Ambiente, que em nada corroboram ou somam com as intenções dos especialistas sérios como técnicos do ICNBIO, IBAMA, FUNAI, da Embrapa, entre outros, preocupados em proteger as nossas florestas, sejam as da Amazônia, ou da Mata Atlântica, dos manguezais no Nordeste, e quilômetros de regiões ribeirinhas que são santuários ecológicos marinhos, como as Mangaratiba, na região dos Lagos, etc…etc…etc…

Enquanto isso, nós que trabalhamos com pecuária, seja na área de produção de carne e leite à pasto, seja na informação para ajudar o setor a produzir cada vez mais e melhor, em menor área, não podemos ficar de braços cruzados. Nós já sabemos, por meio de vários trabalhos científicos da Embrapa, do IZ – Instituto de Zootecnia, entre outras grandes instituições de renome, nacional e internacional, que nas áreas de pastagens, não precisamos derrubar mais nenhuma árvore, para aumentar a produtividade, embora 74% de nossas pastagens encontrem-se em algum nível de degradação.  Então, não há muito o que pensar: é preciso investir em recuperação e essa é uma decisão que tem que ser tomada com coragem.

 Quando soube disso, por volta de 2005, ainda do ponto de vista do marketing, sem muita consciência ambiental, admito, entendi claramente que as empresas do setor tinham ouro em pó nas mãos e que era só investir na divulgação de suas sementes forrageiras e correr pro abraço, pois tínhamos (temos) uns cem anos aí pela frente, pra recuperar tudo o que está degradado, ainda mais com a necessidade de cada vez se produzir mais.  Foi justamente quando criamos o portal Boi a Pasto para incentivar essas ações. Mas,  mudar paradigmas, não é fácil, como dizia Jorge Matsuda, diretor presidente do Grupo Matsuda, e nosso cliente de Assessoria de Comunicação, pela agência Taxi Blue, por onde botamos o nosso pezinho no agro. Infelizmente, o mercado ainda não estava maduro o suficiente para entender e apoiar nossa proposta.  Como profissional de comunicação sempre vivi esse tipo de problema. Tenho ideias para 20, 30 anos à frente do meu tempo. Aí, semeio e outros colhem. Dessa vez, creio que será diferente, pois não dá para adiar ou fechar os olhos para essa questão.

Se temos mais de 174 milhões de hectares de áreas de pastagens (esse número é aproximado, provavelmente seja mais do que isso, no atual momento), no Brasil e cerca de 70% são degradadas em vários níveis, já pensaram no tamanho do mercado que temos para vender sementes forrageiras? Mas, para isso, são necessárias ações contínuas de marketing e de comunicação para ajudar a conscientizar os pecuaristas e envolvê-los como parceiros de primeira hora, nesse processo que pode durar os próximos cem anos. Ou seja: garantir a existência dos negócios de sementes forrageiras para as próximas dez gerações e, ao mesmo tempo, transformar em mocinha do meio ambiente aquela que nos últimos 30 anos tem sido vista como sua grande vilã, mesmo que já tenha mudado muito sua maneira de agir sobre o manejo das pastagens. Nós, da porteira para dentro, sabemos disso, mas quem é que sabe lá fora, nas comunidades urbanas, ou no exterior, se os empresários do setor se limitam a fazer o mínimo dos mínimos, em termos de comunicação, até com o seu mercado primário, que são justamente os pecuaristas? É mais fácil mantê-los sob essa pecha de vilões, do que juntar-se a eles e mudar todo esse cenário? Será que é isso e sou eu que estou equivocada? Tenho certeza que não, pois nosso empresariado do agronegócio, mais ainda da pecuária é extremamente conservador, mas não é louco.

Acreditamos que a maioria dos pecuaristas já estão conscientes sobre a necessidade da recuperação das área de pastagens degradadas. Aliás, mais que conscientes, estão convencidos disso. Porém, uma andorinha só não faz verão. É preciso que todo o setor forrageiro abrace esse causa. Convenhamos, que não dá mais pra ficar exigindo ou cobrando só do pecuarista que ele faça a lição de casa, garantindo a tal da sustentabilidade em todas as suas ações, sem que as indústrias que dependem dele como consumidor, não apoiem ou incentivem iniciativas nesse sentido. Mesmo porquê, é um trabalho muito profícuo de parceria de mão dupla, onde todos os envolvidos no processo saem ganhando: de um lado, as empresas que têm sementes para vender, investem e desenvolvem sementes cada vez mais tecnológicas para atender a maior e mais abrangente diversidade de condições climáticas, etc…etc…e de outro lado, temos os pecuaristas necessitando produzir mais, sendo cada vez mais pressionados pelo mercado consumidor a produzir dentro de condições cada vez mais sustentáveis. Porquê essa conta tem que ser debitada só para quem acredita e se dispõe a correr todos os riscos, fazer o trabalho pesado, que é investir na produção pecuária? Considero essa situação altamente injusta. Porquê não juntarmos esses dois stakeholders na mesma mesa para uma conversa franca e amiga, onde todos sairão ganhando? Algumas ações neste sentido já vêm sendo feitas, esparsamente, por entidades preocupadas com a situação, como a ABCZ, que acabou de lançar um projeto onde o objetivo é exatamente esse: ensinar o produtor pecuarista a recuperar suas pastagens degradadas. A iniciativa foi tão bem recebida pelos próprios pecuaristas, que já estão convencidos dessa necessidade, que eles mesmos propõem que a mesma seja repetida por outras entidades representativas de raças bovinas.

Ou seja: a hora é agora. Não adianta tapar mais o sol com a peneira. Se todas as partes envolvidas nesse processo têm o mesmo interesse e só vão lucrar com isso, porque não se darem a mão?  Porquê ficar esperando o Governo? Qual Governo? De que partido? Países e sociedades desenvolvidas tomam iniciativas em prol de suas comunidades, sem dependência de Governo. Cada vez mais é assim, seja nos EUA, ou nos países escandinavos. Sabemos que nossa realidade é muito diferente da deles, porém, temos ilhas de excelência aqui como Embrapa, ICNBIO, INPE, monitorando todo o nosso meio ambiente e apresentando soluções a todo momento. É só uma questão de decisão política, sim, mas que pode, perfeitamente, partir da própria sociedade. De nossa parte, estamos totalmente abertos a apoiar e participar dessa discussão. O portal Boi a Pasto se propõe a ser um porta voz comprometido com essa causa, envolvendo-se não só na produção contínua de reportagens sobre o assunto, para mostrar como se faz, e quem é que já faz, ou seja, já recupera pastagens degradadas para servir de modelo para outros que querem fazer o mesmo, como ser um porta-voz do setor, internamente, da porteira pra dentro e da porteira pra fora, incluindo o mercado internacional, pois em nossa nova plataforma que já começa a ser construída para comemorarmos os nossos 15 anos, vamos incluir as versões em inglês e espanhol, para sermos lidos e ouvidos em outros idiomas, também fora do Brasil. Nesse sentido, vamos ampliar nossas fronteiras, com total garantia de proteção ao meio-ambiente. Enquanto isso, esperamos que a indústria que vive de produzir insumos e produtos finais para a pecuária, especialmente a forrageira se sensibilize também com a questão que está a lhe bater na porta, já faz algum tempo, e se disponha também a abraçar essa causa. De verdade e de braços bem abertos.

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