Agrizone: o espaço que apresentou ao mundo o agro brasileiro sustentável

Foto: Saulo Coelho

A Agrizone reuniu produtores, pesquisadores, cooperativas e empresas para apresentar soluções que unem produção, conservação e tecnologia

Texto: Bruno Faustino – Enviado especial a Belém (PA)

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Belém, no Pará, viveu dias históricos ao sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30. A Revista Negócio Rural participou desse importante encontro mundial, que recebeu delegações de diversos países que discutiram estratégias para reduzir emissões, ampliar investimentos ambientais e acelerar políticas de adaptação. Um dos focos centrais foi a transição para sistemas alimentares sustentáveis, com destaque para as soluções de países tropicais.

O Brasil foi considerado uma liderança natural nessa discussão, graças à combinação de biodiversidade, capacidade produtiva e tecnologias próprias para solo, clima e desafios ambientais típicos das regiões de clima quente. As negociações reforçaram a importância de modelos agrícolas capazes de aliar produtividade e conservação.

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Essa perspectiva abriu espaço para uma participação ampliada do agronegócio brasileiro na conferência. Temas como agricultura de baixo carbono, manejo regenerativo, biocombustíveis, bioinsumos e recuperação ambiental apareceram com intensidade.

Nesse contexto, o setor apresentou sua contribuição para a transição energética, como destacou Eduardo Bastos, CEO do Instituto Equilíbrio, ao afirmar que “a agenda de biocombustível pode entrar de maneira estruturada na transição energética, com um papel muito mais relevante do que temos hoje”.

A COP30 consolidou a ideia de que a agricultura tropical ocupa uma posição estratégica no enfrentamento ao aquecimento global — e precisava de um espaço próprio para mostrar isso.

A vitrine da agricultura sustentável

A Agrizone nasceu como espaço dedicado à agricultura sustentável dentro das atividades paralelas da conferência. O objetivo era apresentar tecnologias, pesquisas e iniciativas que tornaram o Brasil referência mundial em produção de baixo carbono.

A concepção do pavilhão partiu da Embrapa, que buscava criar um ambiente aberto, colaborativo e preparado para receber instituições públicas, privadas, produtoras e comunidades tradicionais. “Criamos um espaço inclusivo, de parcerias, para mostrar a sustentabilidade da agricultura brasileira”, explicou Silvia Massruhá, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.

Durante os dias de programação, a Agrizone reuniu centenas de palestras, demonstrações, oficinas, visitas educativas e encontros temáticos. Os estandes apresentavam sistemas agroflorestais produtivos, tecnologias de rastreamento de carbono, bioinsumos, recuperação de áreas degradadas, manejo de solos, modelos de integração entre lavoura, pecuária e floresta, além de iniciativas comunitárias que preservam e geram renda.

O pavilhão mostrou, de forma prática, que a agricultura tropical brasileira é capaz de combinar ciência, tradição e inovação.

CIÊNCIA APLICADA – A Embrapa apresentou diversas tecnologias que já fazem parte do cotidiano de muitos produtores. Técnicas de manejo para aumentar a matéria orgânica do solo, ferramentas para medir carbono estocado em árvores e sistemas que aceleram a regeneração ambiental estavam entre os destaques.

Na área dedicada à biodiversidade amazônica, os visitantes acompanharam cálculos de estocagem de carbono em árvores nativas. A pesquisadora Lis Stegmann explicou como cada estrutura vegetal armazena carbono ao longo dos anos. “O carbono é estocado em diferentes estruturas da árvore, mas principalmente no tronco, onde há maior estoque. Com 77 centímetros de diâmetro e 25 metros de altura, uma árvore como esta pode guardar cerca de 1,9 tonelada”, detalhou.

Em seguida, demonstrou o uso de QR Codes para monitorar informações sobre cada árvore estudada. Também apresentou espécies tradicionais, como o breu, convidando o público a passar a mão e sentir o cheiro da resina aromática.

O espaço da floresta se conectava ao pavilhão dos sistemas alimentares. Ali, chocolates produzidos com cacau amazônico, mel de agrofloresta, cosméticos feitos do caroço do açaí e cafés cultivados sob sombreamento demonstravam que a sustentabilidade pode gerar produtos de alto valor agregado.

EXEMPLOS PRÁTICOS – O café carbono negativo chamou a atenção dos visitantes. O produtor Carlos Pellicer explicou uma das práticas utilizadas na lavoura. “A Telo integra matéria orgânica com fertilizantes. Com isso, eu otimizo o uso de fósforo em 50%”. O manejo regenerativo desse café contribui para a captura de carbono durante o cultivo.

A empresa UPL apresentou tecnologias desenvolvidas para reduzir impactos no uso de nutrientes e insumos. O CEO da empresa no Brasil, Rogério Melo, observou que “nas últimas três ou quatro COPs, as iniciativas do agro vieram crescendo, mas esta marcou um grande momento: a inserção definitiva do setor na discussão climática”. O CEO global, Jai Shroff, acrescentou: “hoje temos bioestimulantes capazes de reduzir o uso de nitrogênio em 20%. Queremos mostrar ao mundo que a tecnologia existe”.

Esse diálogo entre ciência e inovação caracterizou a essência da Agrizone, evidenciando o potencial da agricultura tropical para mitigar os efeitos do aquecimento global.

Cooperativismo e modelo produtivo de baixo impacto

Entre as instituições presentes, cooperativas brasileiras mostraram práticas que conciliam eficiência produtiva, governança compartilhada e sustentabilidade ambiental. A atuação coletiva foi apresentada como ferramenta de desenvolvimento e estabilidade no campo.

De acordo com Débora Ingrisano, gerente de desenvolvimento de cooperativas, “os nossos cooperados já cuidam do empreendimento cooperativo. Isso torna o negócio sustentável, porque garante viabilidade e, ainda assim, respeito ao meio ambiente”.

Casos de uso racional de insumos, agricultura digital, programas de reflorestamento e capacitação técnica reforçaram o impacto ambiental positivo do modelo cooperativista.

Além disso, a presença de povos e comunidades tradicionais trouxe ao debate a importância do conhecimento ancestral na construção de sistemas alimentares resilientes. Experiências de manejo sustentável da floresta, coleta de frutos nativos, produção artesanal e cultivo em áreas de várzea foram apresentadas como parte do mosaico produtivo amazônico.

LEGADO – A Agrizone deixou uma mensagem inequívoca: a agricultura tropical pode ser uma das chaves para enfrentar a crise climática. O pavilhão mostrou que produção de alimentos, equilíbrio ambiental e inovação não são propostas incompatíveis, mas complementares.

Ao reunir ciência, tecnologia, cooperativismo, empreendedorismo e saberes tradicionais, o espaço ofereceu um retrato consistente do potencial brasileiro. A conferência reforçou a ideia de que modelos produtivos tropicais são fundamentais para garantir segurança alimentar, gerar renda e proteger florestas.

A pesquisadora Mariângela Hungria, vencedora de prêmios internacionais em ciência agrícola, resumiu esse papel ao afirmar que “o Brasil é líder da agricultura tropical, e isso exige muita ciência e tecnologia para desenvolver uma agricultura que permite produção o ano inteiro”.

Em Belém, a floresta e o campo dividiram o mesmo palco. A COP30 encerrou suas negociações, mas a Agrizone seguirá como referência de um agro que olha para frente, combina tradição e futuro, e apresenta ao mundo caminhos concretos para uma produção sustentável em grande escala.

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