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O número de empresas do agronegócio em recuperação judicial mais que dobrou em Minas Gerais em um ano. No primeiro semestre de 2026, o estado chegou a 123 empresas agropecuárias nessa situação, alta de 108,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da consultoria RGF.
O agro também concentra a maior quantidade de recuperações judiciais entre os setores da economia mineira. São 4,95 recuperações para cada mil empresas do setor, enquanto a média de Minas Gerais é de 0,22. O índice mostra uma diferença superior a 20 vezes em relação à média estadual.
O avanço acompanha um movimento observado em outras regiões produtoras. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil registrou 474 pedidos de recuperação judicial no agronegócio, aumento de 22% em relação aos três primeiros meses de 2025, de acordo com a Serasa Experian. Em Minas Gerais, foram 34 registros no período, número inferior ao de Mato Grosso, Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.
A recuperação judicial permite que uma empresa em dificuldade financeira reorganize as dívidas e estabeleça um plano de pagamento aos credores. O processo é acompanhado pela Justiça e pode ajudar o negócio a ganhar tempo para continuar funcionando, mas também envolve custos e restrições para a administração.
Em Minas Gerais, o cenário ganha peso porque o agronegócio tem participação significativa na economia estadual. O setor respondeu por quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) mineiro em 2025. Com isso, o aumento das dificuldades financeiras entre produtores e empresas do segmento também afeta uma parcela importante da atividade econômica.
Pressão sobre custos e receitas
A elevação dos juros e o encarecimento do crédito estão entre os fatores que pressionam o caixa das empresas rurais. O setor também passou por mudanças nos preços das commodities, aumento dos custos dos insumos e problemas climáticos nos últimos anos.
Segundo a Serasa Experian, uma sequência de fatores vem afetando o agronegócio desde 2021. O período começou com preços elevados das commodities e maior oferta de crédito, seguido por queda nos preços de alguns produtos, aumento dos custos após a guerra na Ucrânia, juros mais altos e sucessivos eventos climáticos.
A gestão financeira também aparece como um dos pontos de atenção. Especialistas ouvidos no levantamento afirmam que parte dos produtores ainda administra a propriedade de forma intuitiva, o que pode dificultar a identificação antecipada de problemas de caixa. Ao mesmo tempo, os riscos enfrentados pelo produtor não dependem apenas da administração, já que fatores como câmbio, juros, preços dos insumos e clima estão fora do controle direto da atividade rural.
A recuperação judicial costuma ser considerada uma medida de último recurso. Antes dela, sinais como aumento da inadimplência, dificuldade para cumprir contratos e falta de recursos para financiar o ciclo seguinte podem indicar que o negócio precisa reorganizar as contas ou renegociar dívidas.
A tecnologia também passou a ser usada para identificar riscos financeiros com antecedência. A Serasa Experian desenvolveu o Agro Score, indicador que utiliza dados de pagamentos, produção e transações comerciais para estimar a capacidade de pagamento de produtores. A ferramenta combina informações financeiras com dados sobre produção e clima, incluindo imagens de satélite.
A inteligência artificial também começa a ser utilizada nos próprios processos de recuperação judicial. Em um projeto-piloto realizado pelo Conselho Nacional de Justiça em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária, imagens de satélite são analisadas para ajudar a Justiça a verificar se as informações apresentadas nos pedidos correspondem à realidade das propriedades.
Para especialistas em gestão rural, o uso dessas ferramentas pode ajudar o produtor a identificar problemas antes que eles se transformem em uma crise. O acompanhamento de custos por hectare, produtividade, contratos, compras de insumos e orçamento permite avaliar com mais rapidez quando uma estratégia precisa ser modificada.
Nesse cenário, a recuperação judicial aparece como parte de um problema financeiro que pode começar muito antes do pedido à Justiça. A combinação entre crédito mais caro, custos elevados, instabilidade de preços e eventos climáticos aumenta a necessidade de planejamento para que o produtor consiga atravessar períodos de menor rentabilidade sem comprometer a continuidade da atividade.
Fonte: RGF
