Metais tóxicos são encontrados em cacau, banana e mandioca no estuário do Rio Doce, aponta estudo

Foto: Angelo Bernardino/Ufes

Um estudo científico identificou níveis elevados de elementos potencialmente tóxicos em solos agrícolas e em alimentos cultivados no estuário do Rio Doce, no Espírito Santo. Entre os metais encontrados estão cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo, presentes em culturas como banana, mandioca e cacau, consumidas pela população local.

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A pesquisa foi publicada em outubro na revista internacional Environmental Geochemistry and Health e realizada em 2021 por uma equipe interdisciplinar de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. O trabalho recebeu financiamento da Fapesp e da Fapes, por meio do projeto Rede Solos e Bentos Rio Doce.

Os pesquisadores investigaram os efeitos da contaminação crônica provocada por rejeitos de mineração ricos em ferro no estuário — região de transição entre o rio e o mar. O local segue sob os impactos do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em novembro de 2015, em Mariana (MG), sob a gestão da Samarco Mineração S/A, desastre que completa dez anos.

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De acordo com o estudo, as concentrações de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo nos solos analisados ultrapassam os valores de referência estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Para o professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia e do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental da Ufes, os resultados acendem um alerta para a segurança alimentar das comunidades da foz do Rio Doce.

As análises de risco indicaram possível ameaça à saúde de crianças a partir do consumo de bananas cultivadas na região, com destaque para o chumbo como principal responsável pelos índices elevados. Para adultos, os indicadores permaneceram abaixo dos limites considerados críticos.

Segundo a pesquisadora da USP Tamires Patrícia de Souza, coautora do estudo, a exposição crônica ao chumbo está associada a danos irreversíveis ao desenvolvimento neurológico infantil, como redução do quociente de inteligência, dificuldades de atenção e alterações comportamentais. Crianças de zero a seis anos apresentam maior absorção e retenção do metal, o que intensifica a vulnerabilidade mesmo em baixas concentrações.

O trabalho ressalta a necessidade de ampliar a coleta de amostras ao longo do Rio Doce para compreender melhor os riscos à população atingida. Ainda assim, os dados já indicam que, dependendo da quantidade de alimentos contaminados consumidos e da exposição adicional por meio do solo, da água e do ar, há possibilidade de impactos à saúde, sobretudo em crianças.

A pesquisadora Amanda Ferreira, da Esalq/USP, que liderou o estudo, destaca que os resultados reforçam evidências anteriores sobre a biodisponibilidade desses elementos tóxicos no estuário e o caráter crônico dos impactos do desastre de Mariana sobre as comunidades da região.

Amanda Ferreira recebeu o Prêmio USP de Tese 2025 na área de sustentabilidade ambiental e o Prêmio Capes de Tese 2025 em Ciências Agrárias, com pesquisa voltada à bioquímica do ferro em solos impactados por rejeitos de mineração e estratégias ampliadas de biorremediação.

Fonte: Ufes

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