Nova bactéria ligada a doença ocular em bovinos é identificada por pesquisadores

Foto: Luísa Berg

Uma nova espécie de bactéria foi identificada em bovinos no Brasil durante pesquisas sobre uma doença ocular que afeta rebanhos. Batizada de Moraxella tarda, a bactéria foi encontrada na mucosa nasal de animais da raça Hereford que apresentavam sinais iniciais de ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), conhecida entre produtores como “cerato”, “mal do olho” ou “pinkeye”.

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A descoberta foi resultado de uma parceria entre pesquisadores da Embrapa, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e do Instituto Biológico de São Paulo. O estudo começou com coletas realizadas na Embrapa Pecuária Sul, no Rio Grande do Sul, e avançou com análises bioquímicas, fisiológicas e genômicas realizadas em laboratórios da Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, e da Embrapa Gado de Corte, no Mato Grosso do Sul.

A identificação da bactéria amplia o conhecimento sobre os microrganismos associados à ceratoconjuntivite bovina. Até então, espécies como Moraxella bovis e Moraxella bovoculi eram algumas das principais bactérias relacionadas à enfermidade. A análise genética mostrou que a Moraxella tarda apresenta características próprias e não corresponde a uma variação dessas espécies já conhecidas.

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O reconhecimento como uma nova espécie exigiu uma série de análises e a comparação do material com outras bactérias do mesmo gênero. Amostras representativas foram depositadas em coleções microbiológicas da Bélgica, de Portugal e do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, procedimento utilizado para validar a descrição de uma nova espécie.

O nome Moraxella tarda está relacionado ao crescimento mais lento da bactéria em laboratório. Enquanto algumas espécies apresentam colônias em cerca de 24 horas, os pesquisadores observaram que as colônias da nova bactéria apareciam aproximadamente 48 horas após a incubação.

O sequenciamento completo do genoma também ajudou a confirmar a descoberta. A bactéria possui cerca de 1,8 milhão de bases em seu genoma, que foi sequenciado com 99,2% de cobertura. A análise identificou 1.930 genes codificadores e mostrou uma similaridade genética de 77% a 79% em comparação com outras espécies do gênero Moraxella. O resultado ficou abaixo do parâmetro utilizado para considerar organismos pertencentes à mesma espécie.

Possíveis impactos na saúde do rebanho

A descoberta pode abrir novas linhas de investigação sobre a ceratoconjuntivite infecciosa bovina. A doença provoca inflamação, dor, lacrimejamento e lesões na córnea e pode comprometer a visão dos animais. Em casos mais graves, os bovinos podem sofrer perda parcial ou total da visão.

Além dos impactos sobre o bem-estar dos animais, a enfermidade também pode afetar a produtividade. A dor pode reduzir o consumo de alimentos e o ganho de peso, enquanto os tratamentos aumentam o trabalho e os custos dentro das propriedades.

Para os pesquisadores, identificar novas espécies associadas ao problema é importante principalmente para entender por que algumas estratégias de controle apresentam resultados diferentes entre os rebanhos.

A descoberta também pode contribuir para pesquisas futuras sobre vacinas. De acordo com os pesquisadores, caso a nova bactéria esteja envolvida no desenvolvimento da doença, sua identificação poderá ser considerada no desenvolvimento de imunizantes capazes de abranger diferentes agentes associados à CIB.

Descoberta começou em pesquisas sobre resistência

A nova bactéria foi identificada durante estudos voltados à seleção de bovinos mais resistentes à ceratoconjuntivite. As pesquisas são realizadas desde 2014 com animais Hereford criados na região de Bagé, no Rio Grande do Sul.

Durante uma análise de rotina, os pesquisadores perceberam características diferentes em uma das amostras. A investigação continuou até que análises genéticas confirmassem que o microrganismo não correspondia às espécies de Moraxella já conhecidas.

O trabalho mostra como pesquisas voltadas ao melhoramento genético podem também contribuir para a identificação de novos agentes relacionados a doenças que afetam os rebanhos.

A Embrapa já desenvolve estudos para identificar animais com maior resistência à ceratoconjuntivite. Pesquisas realizadas em parceria com instituições do setor indicam que essa resistência possui componente genético e pode ser incorporada aos programas de melhoramento.

Pesquisas continuam

A identificação da Moraxella tarda não encerra as investigações. Uma nova etapa, financiada pelo CNPq, pretende aprofundar o conhecimento sobre a interação entre diferentes espécies de Moraxella e os tecidos dos bovinos.

Os pesquisadores também trabalham com um modelo que utiliza córneas obtidas de animais destinados ao abate. Os tecidos são mantidos em condições de laboratório para permitir o estudo da interação entre as bactérias e as células da córnea.

A estratégia reduz a necessidade de realizar testes invasivos em animais vivos e permite observar, em condições controladas, como as células oculares respondem à presença das bactérias. Técnicas como sequenciamento de RNA e qPCR serão utilizadas para analisar alterações genéticas durante esse processo.

Os resultados podem contribuir, no futuro, para o desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico, vacinas e estratégias de controle da ceratoconjuntivite infecciosa bovina. Para a pecuária, o avanço representa mais uma frente de pesquisa para compreender uma doença que afeta a saúde e o desempenho dos animais.

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