Nova espécie de samambaia é descoberta no Brasil

Encontrada em casas, apartamentos e escritórios de todas as regiões do Brasil, a samambaia é uma das plantas mais populares do país. E para quem gosta dessas versáteis e belas representantes da flora, uma boa notícia: um pesquisador brasileiro e outro americano acabaram de descobrir seis novas espécies de samambaia, sendo que uma delas ocorre na porção brasileira da floresta amazônica. As descobertas foram publicadas em dois artigos na revista científica Brittonia, editada pelo Jardim Botânica de Nova York, nos Estados Unidos.

“As samambaias têm uma fase no ciclo de vida em que são muito sensíveis e qualquer alteração ambiental, como poluição ou desmatamento, que podem ser bastante prejudiciais. Logo, a ocorrência dessas espécies acaba servindo como bioindicador da qualidade dos ecossistemas. Se entendermos como elas evoluíram, como elas se diversificaram e as influências das mudanças climáticas na sobrevivência dessas plantas, teremos dados importantes para ações mais efetivas de conservação da biodiversidade”, explica o membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Henrique Labiak Evangelista.

A descoberta da espécie amazônica, batizada com o nome científico de Campyloneurum atrosquamatum, foi publicada na edição de setembro da Brittonia, enquanto as outras cinco espécies, registradas na Colômbia (C. castaneum, C. filiforme e C. pichinchae), Jamaica (C. jamaicense) e Equador (C. parvisquama), foram apresentadas ao mundo na edição de dezembro.

Em geral, na botânica, as espécies são descobertas por meio do trabalho de campo, em que os pesquisadores vão a um determinado local e coletam as plantas ainda frescas; ou por meio das coleções já presentes em herbários, que são grandes bibliotecas da biodiversidade.

“Existem muitas plantas em herbários que nunca foram estudadas e, portanto, é como se elas ainda fossem invisíveis. Tecnicamente elas foram descobertas, mas não estudadas ou descritas. Sem a descrição, a ciência não tem como confirmar de que se trata realmente de novas espécies. Por isso a importância desses estudos”, aponta Labiak.

Ele destaca ainda que, se uma planta não foi descrita, não dá para saber se ela pode vir a ter princípios ativos ou algum gene importante que tenha alguma aplicação prática na vida das pessoas. Vale lembrar que as plantas são a principal fonte de alimentos e compostos químicos usados pelos seres humanos. Entre esses compostos destacam-se alguns de grande importância, como a cafeína, a lidocaína e a morfina. “Se não conhecemos nem a espécie, não podemos conhecer suas aplicações.”

ETAPAS DA DESCOBERTA – Em todas as seis espécies, os pesquisadores (Labiak e seu colega, o americano Robbin C. Moran) conduziram um minucioso trabalho de biologia molecular para analisar os dados de sequenciamento genético das plantas. Essa é uma etapa extremamente importante, pois em casos de espécies de um mesmo gênero, como as samambaias, que pertencem todas ao gênero Campyloneurum, nem sempre é possível identificar diferenças claras em sua morfologia, ou seja, em seus aspectos visuais.

Uma vez concluído o sequenciamento genético, ele é comparado com amostras de várias outras localidades, utilizando análises filogenéticas (evolutivas) moleculares. Mesmo as amostras de herbários, que por causa do tempo muitas vezes ficam com o DNA fragmentado, podem ser usadas nestes estudos evolutivos.

“Pegamos amostras de vários países para entender como esse gênero evoluiu e se distribuiu ao longo do tempo na região neotropical. Depois comparamos vários espécimes (exemplares) de uma mesma espécie. A da Jamaica, por exemplo, estava sendo identificada como se fosse uma planta que existe na Martinica, na Venezuela. Coletamos outras espécies similares e vimos, com base na análise de DNA, que cada uma fazia parte de uma linhagem diferente, chegando assim à conclusão de que essa população de samambaia da Jamaica era de fato uma outra espécie, nova, e que o nome que estava sendo atribuído a ela estava errado”, conta o botânico da UFPR. Ao todo, foram coletadas mais de 200 amostras para este estudo, de vários países.

O gênero Campyloneurum é comum em áreas tropicais, úmidas e montanhosas e só pode ser visto na região neotropical, ou seja, em áreas de clima tropical das Américas – do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Assim, ela pode ser encontrada nos Andes e nas montanhas da América Central.

As espécies do gênero são relativamente fáceis de serem distinguidas de outras por terem características morfológicas únicas. O nome Campyloneurum significa “nervuras tortuosas”, justamente para fazer referência ao padrão de nervuras presentes em toda a sua folha. No entanto, curiosamente, como todas as espécies apresentam padrões similares, a diferenciação visual acaba se tornando bem difícil, obrigando os botânicos a recorrerem às análises genéticas.

Embora essas tenham sido as descobertas mais recentes, o trabalho dos pesquisadores começou em 2016 e, desde então, mais de 10 novas espécies foram descritas por eles.

REDE DE ESPECIALISTAS – A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade.

São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias.

Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

Fonte: Fundação Boticário

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