O alimento que ensina, sustenta e transforma
Fotos: Jansen Lube

Texto: Bruno Faustino
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Ainda é cedo nas montanhas capixabas. O sol mal desenhou suas primeiras luzes no horizonte quando as mãos que vivem da terra já estão em movimento. A colheita começa cedo porque o destino é certo: as escolas municipais de Vitória. É dali, da roça silenciosa do interior, que começa a refeição de mais de 42 mil estudantes da capital do Espírito Santo.
Alface, couve, banana, aipim, beterraba, ovos, leite que vira iogurte. Tudo segue um caminho organizado, planejado, sincronizado. Parece simples quando chega ao prato, mas carrega uma engrenagem complexa feita de políticas públicas, cooperativas, agricultura familiar, nutricionistas, merendeiras, logística e compromisso social.
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Na capital capixaba, a alimentação escolar deixou de ser apenas uma obrigação administrativa. Virou projeto estratégico de cidade. “A alimentação escolar é um direito fundamental e desempenha um papel estratégico no desenvolvimento integral dos estudantes. Ela contribui diretamente para o desempenho acadêmico, para a saúde biológica e para a aprendizagem”, afirma a secretária de Educação de Vitória, Juliana Rohsner.
Mas Juliana faz questão de ir além do discurso técnico. “Mais do que nutrir o corpo, a alimentação escolar ajuda a formar hábitos, cultura alimentar, consciência. A criança aprende desde cedo que comer bem também é uma forma de cuidado com ela mesma”, disse.
Enquanto o aluno ainda dorme, o agricultor já cumpre sua parte do pacto silencioso que conecta campo e cidade. Um pacto feito de confiança, preço justo, previsão de entrega e, principalmente, permanência no campo.
| Quando a merenda deixa de ser só comida Durante décadas, a merenda escolar no Brasil esteve associada à ideia de complemento alimentar básico. Em muitos lugares, era sinônimo de alimento industrializado, cardápio repetitivo e pouco diálogo com a saúde. Essa realidade começou a mudar com a estruturação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que trouxe diretrizes mais humanas, sustentáveis e descentralizadas. Em Vitória, essa virada aconteceu antes mesmo da obrigatoriedade legal. “Ao longo dos anos, a política de alimentação escolar avançou significativamente. Deixou de ser apenas a oferta de refeições para incorporar um olhar qualificado sobre a composição nutricional, os mecanismos de aquisição e os processos de controle”, explica Juliana. Hoje, a capital trabalha com uma diretriz clara: menos ultraprocessados, mais comida de verdade. “Reduzimos ao máximo os produtos diretamente relacionados ao aumento da obesidade infantil. A escola é um espaço de formação e precisa ser também um espaço de cuidado com a saúde”, reforça a secretária. E esse cuidado virou prática pedagógica. A alimentação não está somente no prato – está no currículo. Em centros de educação infantil, projetos de hortas pedagógicas permitem que as crianças acompanhem o ciclo do alimento: plantar, regar, colher, preparar e comer. No CMEI Ocarlina Nunes Andrade, por exemplo, as crianças colocam literalmente a mão na terra. Aprendem na prática o valor de cada folha, de cada raiz, de cada fruto. “Quando a criança entende de onde vem o alimento, ela muda a relação com a comida. Ela aprende a respeitar, a valorizar e a fazer escolhas mais saudáveis”, diz Juliana. E esse aprendizado não fica só na escola, mas atravessa os portões e entra nas casas. |
A cidade que não planta, mas faz brotar o campo
Vitória não tem grandes áreas agrícolas. Não tem lavouras extensas nem criação em larga escala dentro de seu território. Ainda assim, a capital se tornou uma das cidades que mais fortalecem a agricultura familiar no Espírito Santo por meio da alimentação escolar.
Os alimentos vêm, principalmente, de Cariacica, Domingos Martins, Santa Maria de Jetibá, Guarapari e Afonso Cláudio. Tudo respeita a lógica do PNAE, que prioriza a compra local antes de ampliar para regiões mais distantes.
“A aquisição de alimentos da agricultura familiar é uma diretriz estruturante do programa. Além de garantir alimentos frescos e de qualidade, essa estratégia fortalece o desenvolvimento sustentável, assegura soberania alimentar e valoriza a produção local”, explica Juliana Rohsner.

Nesse processo, as cooperativas capixabas são protagonistas. Organizam a produção, garantem volume, padronização, logística e regularidade. Do outro lado, oferecem ao agricultor algo raro no mercado: previsibilidade. “O agricultor sabe quanto vai produzir, sabe para quem vai vender e sabe quando vai receber. Isso muda tudo na vida dele”, explica a secretária.
Hoje, Vitória já ultrapassa o mínimo legal de 30% de compra da agricultura familiar e segue avançando. “Temos um histórico diferenciado. Valorizamos a agricultura familiar antes mesmo da obrigatoriedade prevista em lei. Criamos parcerias sólidas e estimulamos a diversificação da produção, como no caso do iogurte natural. E seguimos empenhados em ampliar ainda mais essa participação”, garante.
Esse modelo movimenta a economia regional, mantém famílias no campo, reduz o êxodo rural, incentiva a sucessão familiar e transforma a produção em caminho de futuro para os jovens agricultores.
Cooperativas fortalecem a merenda de Vitória e transformam produção em dignidade
O alimento que chega diariamente às escolas municipais de Vitória percorre um caminho que começa no campo, passa pela organização das cooperativas e chega à cidade carregando muito mais do que nutrientes. Carrega histórias de famílias agricultoras, trabalho coletivo, planejamento e uma engrenagem que garante comida de qualidade para milhares de crianças. A parceria entre a Prefeitura de Vitória e as cooperativas da agricultura familiar vem se consolidando como um dos principais exemplos de como políticas públicas e cooperativismo podem caminhar juntos.
“De fato, as crianças sentem esse carinho que vocês têm ao produzir, manusear, transportar e entregar os produtos nas nossas unidades”, afirma o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini. A fala resume o espírito da iniciativa: a merenda como gesto de cuidado que começa no campo.
Para as cooperativas, essa relação representa estabilidade, reconhecimento e fortalecimento da base produtiva. O diretor-executivo do Sistema OCB/ES, Carlos André Santos de Oliveira, destacou o compromisso permanente das cooperativas com a cidade. “As nossas cooperativas seguirão trabalhando, junto com seus cooperados, com esmero, eficácia, conexão, carinho e assertividade para continuar fazendo essas entregas”, afirmou.

Na prática, essa organização garante que pequenos produtores consigam atender a um mercado exigente, com regularidade, qualidade e logística adequada. O presidente da Cooperativa de Empreendedores Rurais de Domingos Martins, Darli Jose Schaefer, resume bem esse impacto. “Sozinho, o agricultor dificilmente conseguiria atender a uma demanda desse tamanho. Na cooperativa, a gente se organiza, divide a produção, cumpre os prazos e ainda consegue negociar preço justo. Isso muda completamente a vida no campo”, relata.
O cooperado Joelson Wruck reforça que a venda para a merenda escolar trouxe segurança. “Hoje, a gente planta sabendo para quem vai vender. Isso dá tranquilidade para investir, melhorar a produção e até manter os filhos na propriedade”, conta.
Além de garantir renda, as cooperativas também elevam o padrão dos alimentos que chegam às escolas. Com assistência técnica, organização sanitária e controle de qualidade, frutas, legumes, hortaliças, raízes, ovos, leite e derivados chegam frescos, diversificados e com origem garantida.
Onde a comida vira cuidado, educação e afeto
Se no campo o alimento nasce, é na escola que ele vira gesto cotidiano de cuidado. As merendeiras são personagens centrais nessa história. São elas que transformam caixas de alimentos em refeições quentes, equilibradas e cheias de afeto.
Em Vitória, o trabalho dessas profissionais é valorizado e reconhecido. Elas conhecem os alunos pelo nome, sabem quem come mais, quem come menos, quem tem restrição alimentar e quem chega com fome dobrada. A cozinha escolar é, muitas vezes, o primeiro lugar de acolhimento do dia.
Além delas, os nutricionistas da rede municipal cumprem papel estratégico. São eles que estruturam cardápios para mais de 42 mil crianças e estudantes, considerando idade, cultura alimentar, necessidades nutricionais e os produtos disponíveis da agricultura familiar. “A alimentação escolar não é improviso. É ciência, planejamento e política pública. Cada detalhe é pensado para garantir saúde, aprendizagem e desenvolvimento”, reforça Juliana.
A engrenagem é grande e silenciosa. Envolve agricultores, cooperativas, gestores, técnicos, nutricionistas, merendeiras, professores, motoristas, equipes administrativas e famílias. Um sistema inteiro que se move todos os dias para que o prato esteja servido na hora certa.
Vitória construiu um modelo em que a alimentação escolar deixou de ser um custo para se tornar investimento. Investimento em saúde pública, em educação de qualidade, em economia regional, em dignidade no campo e em futuro para a cidade.
No fim, talvez a maior lição esteja exatamente aí: dentro de cada prato servido nas escolas de Vitória existe muito mais do que comida – existe política pública, justiça social, desenvolvimento e o futuro sendo alimentado todos os dias.
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