Pequenos negócios impulsionam o turismo de experiência no Espírito Santo

Foto: Julio Huber

Parte do café da manhã na pousada Altoé da Montanha é feito em um fogão móvel e o hóspede assiste ao preparo

Texto: Bruno Caetano / Fotos: Divulgação

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Pequenos empreendedores do interior do Espírito Santo têm encontrado no turismo de experiência uma forma de gerar renda, valorizar a cultura local e manter as raízes vivas. A proposta é simples: oferecer ao visitante mais do que uma hospedagem ou um café. A ideia é transformar cada atividade em uma vivência autêntica e conectada a região.

Em Venda Nova do Imigrante, na Pousada Altoé da Montanha, o conceito de experiência começa pela hospitalidade. O casal Lúcio e Dulce Altoé recebe os hóspedes com café da manhã preparado com produtos do próprio quintal, promove rodas de conversa em volta do fogão móvel a lenha e convida para caminhadas em meio à natureza.

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Lúcio e Dulce Altoé iniciaram com um café colonial e depois, juntamente com os filhos, abriram uma pousada e bistrô

“As pessoas vêm aqui buscando sossego, mas também querem saber de onde vem o que elas comem, como vivemos, como produzimos. A gente não vende só um quarto, vende uma experiência mesmo”, conta Pedro Altoé, filho do casal e que administra a pousada com os pais.

Essa conexão com o visitante surgiu a partir de um aprendizado direto da cafeteria que mantinham em Venda Nova do Imigrante desde 2011. “Percebemos que o público buscava autenticidade e contato com a cultura local. Então, a pousada nasceu para ampliar essa vivência que já oferecíamos no café. Melhoramos nosso acolhimento, valorizamos a simplicidade e reforçamos a essência do interior capixaba”, explica Pedro.

A família planeja ampliar o número de unidades para atender a demanda de hospedagem na região

O café da manhã, grande destaque da pousada, traduz essa conexão com as raízes italianas da região. É preparado em um fogão móvel tradicional da Serenata Italiana e é comandado por Lúcio. “Priorizamos produtos locais e frescos, como queijos e iogurtes artesanais, frutas colhidas diretamente no nosso sítio, de forma 100% orgânica e com receitas caseiras que resgatam os sabores da roça. Cada detalhe é pensado para criar um ambiente afetivo, cheio de identidade e sabor”, destaca Pedro.

O jovem empreendedor afirma que os pequenos empreendedores têm papel fundamental no fortalecimento do turismo de experiência. “Somos nós que mostramos a cultura local verdadeiramente, com carinho e atenção aos detalhes. Cada produto feito em casa, cada história contada, cada café servido com cuidado faz parte da experiência de quem visita. Além disso, ajudamos a movimentar a economia da região, valorizando produtores locais e criando oportunidades”, enfatiza.

“Você precisa estar presente e contar sua história. Isso gera conexão”.

Pedro Altoé

Negócios estão se reinventando

Experiências como a da Família Altoé essa têm sido o foco do novo posicionamento do Sebrae/ES iniciado em 2024. Com ações direcionadas e investimentos robustos, o número de atrações registradas oficialmente como turismo de experiência saltou de 78 para 179 em apenas um ano, um crescimento de 129%.

De acordo com o superintendente do Sebrae/ES, Pedro Rigo, o estado chegou à marca de 61.723 negócios turísticos registrados, sendo que 97,74% são pequenos empreendimentos. “Mais do que uma diretriz institucional, nosso propósito representa um compromisso real com as pessoas, os negócios e os municípios que fazem do Espírito Santo um estado dinâmico e repleto de oportunidades”, afirma Rigo.

Essas ações fazem parte uma estratégia maior. Em 2024, o Sebrae/ES investiu mais de R$ 28 milhões no setor turístico, sendo R$ 16,3 milhões com recursos próprios e outros R$ 11,7 milhões viabilizados por parcerias estratégicas, incluindo a Secretaria de Estado de Turismo (Setur) e Fecomércio-ES. Os investimentos impactaram diretamente mais de 19 mil empresas, o que representa 33,8% dos negócios do estado enquadrados no CNAE Turismo.

Também em Venda Nova do Imigrante, a produtora rural Tatiana Zandonade adaptou o negócio para receber turistas interessados em conhecer de perto a produção de cafés especiais. “Muita gente quer saber como é feito o café que consome. A gente mostra desde a lavoura até a torra. Tem visitante que nunca havia visto um pé de café antes”, conta Tatiana, que comanda o Café Zandonade ao lado da família.

O turista tem a oportunidade de vivenciar todos os processos de produção de cafés especiais

Além das degustações e visitas guiadas, o espaço oferece oficinas de preparo e venda de produtos artesanais, ampliando a experiência para quem quer se aprofundar no universo do café especial. Para Tatiana, o turismo de experiência também é uma forma de educação. “As pessoas saem daqui entendendo melhor o que é um café especial, porque ele custa mais e por que vale a pena pagar. Isso valoriza o trabalho da agricultura familiar”, garante.

A torra é um dos processos de produção do café
O turista visita as lavouras e apreende sobre cafés especiais

A experiência mais completa é o coffee tour, que dura entre duas e três horas e leva o visitante a conhecer todo o processo produtivo: desde a colheita, passando pela secagem em terreiros suspensos, até a torrefação e a degustação do café recém-torrado. Esse contato direto com a produção, junto ao barista que também é mestre de torra, transforma a visita em uma imersão sensorial e cultural que atrai turistas do Brasil e do mundo.

Mais empresas, mais experiências

O crescimento desses negócios, também aparece nas ações de visibilidade, comercialização e valorização dos destinos turísticos capixabas. Foram realizados mais de 30 famtours e presstrips ao longo do ano passado, o que ajudou a atrair seis novas operadoras para o estado e impulsionar destinos capixabas em mídias nacionais.

A partir de 2025, a estratégia do Sebrae/ES é focar em territórios estratégicos como a Rota Quilombola (em São Mateus e Conceição da Barra), o Grande Buda (em Ibiraçu) o Polo Cervejeiro (em Viana), Araguaya (em Marechal Floriano), Sete Cumes (no Caparaó), Lajinha de Pancas (Pancas), Pindobas (em Venda Nova do Imigrante) e a Rota da Ferradura (em Guarapari). A meta é transformar essas regiões em referências nacionais em turismo de experiência. Segundo Pedro Rigo, a definição dos territórios foi feita com base no estágio de maturidade turística de cada local. 

Pedro Rigo destaca que em 2025 o Sebrae/ES está com foco em fortalecer territórios como referência turística

“Vamos reposicionar alguns territórios como referências turísticas. A escolha desses territórios é fruto de um trabalho meticuloso com todas as regionais do Sebrae/ES no estado. Continuaremos trabalhando em todos os territórios, mas entendemos que é preciso focar em lugares potenciais para ter ainda mais êxito nessas ações”, afirma.

Outro objetivo até 2026 é aumentar em 30% o número total de empresas turísticas no Espírito Santo e atingir 500 experiências turísticas formatadas. No desempenho financeiro, o setor também avança: em janeiro de 2025, o turismo no estado teve crescimento de 11,8% no faturamento em relação ao mesmo mês do ano anterior, ficando atrás apenas de Goiás, com diferença de 0,1%.

Esse avanço mostra que o Espírito Santo tem potencial não apenas para atrair visitantes, mas para transformar a experiência turística em uma verdadeira alavanca de desenvolvimento. Com o protagonismo dos pequenos empreendedores e o apoio de políticas públicas bem direcionadas, o turismo capixaba pode gerar mais renda e cria novas possibilidades para quem vive e faz o turismo capixaba acontecer.

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