Preço do café sobe nos supermercados e previsão é de mais uma semana de frio intenso em regiões produtoras

Julio Huber

Cafeicultores de diversas regiões brasileiras ainda estão contabilizando prejuízos causados por fortes geadas que atingiram lavouras de arábica durante essa semana. Mas, a situação ainda pode se agravar se forem confirmadas as previsões de dias de frio ainda mais intenso na próxima semana, conforme prevê o Climatempo e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Em Minas Gerais, o preço da saca de café arábica de 60 quilos ultrapassou R$ 1.000,00. No Espírito Santo, o arábica bebida dura passou de R$ 795 para R$ 878 em uma semana. Especialistas em mercado comentam que os estoques de café no mundo já estavam baixos, mas a expectativa era boa para a safra do próximo ano, que agora sofrerá uma queda devido ao prejuízo causado pela geada.

E os reflexos dessa situação já estão sendo percebidos nos supermercados, que já passaram a aumentar os preços nas prateleiras. Especialista em mercado de cafés e proprietário da marca MM, Marcus Magalhães comenta que os aumentos já estão entre 10% e 20%.

“E a pergunta é: o consumidor vai aceitar esse aumento no preço? Não tem como não aceitar, pois ou o preço é repassado ou fecha tudo. Os preços já estão sendo majorados. Dependendo da qualidade e origem do café, já há aumentos de 20%. Vamos entrar agora em um novo normal de preços elevados. Os estoques mundiais que eram pequenos estão ainda mais curtos e, por tabela, o negócio café está escrevendo uma nova história. Muitos ainda não se deram conta do que vem por aí. O mercado mudou, o café mudou e a gente vai ter que se adaptar ao novo mercado de escassez de mercadoria”, afirmou.

Segundo as primeiras estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a geada atingiu 300 cidades produtoras de café no Paraná, São Paulo, sul e cerrado de Minas Gerais. Os primeiros dados apontam que as geadas ocorridas no dia 20 de julho tenham atingido uma área entre 150 mil e 200 mil hectares, com possibilidade de impactos de baixa, média e alta intensidade.

A Conab estima que mais de 20% da área total de café arábica no Brasil foi afetada, de alguma maneira, pela geada. Alguns produtores tiveram até 80% da sua produção comprometida para 2022, que era um ano onde se esperava uma supersafra.

Mesmo as consequências ainda sendo avaliadas, a quebra da safra 2022 – o que não estava previsto – já é uma realidade. Os preços internacionais do grão já sentiram esse efeito, como na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), cujos preços atingiram os níveis mais altos desde outubro de 2014, passando de US$ 2,00 a libra-peso.

Marcus Magalhães destacou que a grande maioria dos operadores está sem estoque. “O governo está sem estoque regulador para abastecer quem precisa e lá fora com estoque para 40 a 60 dias. E esse problema que atingiu as regiões produtoras não se resolve da noite para o dia. Algumas lavouras afetadas pela geada terão que ser recepadas e até replantadas. Muitas voltam a produzir daqui a um ou dois anos”, disse.

Segundo Magalhães, a frustração de safra para o ano que vem já é fato. “A demanda global também é fato. Estamos entrando em um cenário muito desafiador para o negócio café, com a maior origem de café, que é o Brasil, com problemas de produção e problemas climáticos que ainda rondam as regiões produtoras. Essa geada vai impactar da lavoura à xícara”, afirmou.

Governo promete apoio aos cafeicultores afetados

Na última sexta-feira (23), a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, esteve em Alfenas, no sul de Minas Gerais, para se reunir com os produtores locais. A região, grande produtora de café, foi afetada esta semana por uma geada em decorrência da queda da temperatura.

Preocupados, os produtores se mobilizaram em uma reunião de emergência, da qual a ministra participou representando o Governo Federal. O objetivo foi verificar a situação das lavouras e ouvir os produtores para pensar em uma agenda de prioridades para atender os produtores locais.

“Quando eu recebi os relatos da geada do dia 20 de julho, eu fiquei muito preocupada. Eu sei o esforço para produzir e a frustração de perder a plantação num ano com boas previsões de valores. Viemos aqui para ver, ouvir e achar soluções em conjunto, sentarmos à mesa para identificarmos uma solução, que não será única. A geada pegou pontos diferentes e, por isso, vamos trabalhar em uma solução conjunta com o estado de Minas Gerais, prefeitos e cooperativas“, disse a ministra.

A ministra pediu para que os produtores forneçam dados detalhados sobre as perdas, para ajudar na elaboração das políticas públicas necessárias para o setor. “O levantamento que será feito pelas equipes técnicas do estado, pela nossa equipe da Conab será fundamental para se construir uma política para a região. Pedimos para os produtores que eles nos forneçam os dados corretamente, fotografem as suas lavouras neste momento e que todo mundo fique tranquilo porque juntos vamos achar um caminho para sair dessa situação de perdas que a geada nos trouxe”, garantiu.   

Ela disse que o governo vai ajudar a encontrar soluções, principalmente para os pequenos produtores. “Vamos sentar com as cooperativas, com os bancos, o Ministério da Agricultura tem o Funcafé que é um dinheiro da cafeicultura. Com essa perda avaliada, vamos ver como podemos ajudar os produtores, principalmente os pequenos, que são os que têm menos recursos para se reerguer”.

Antes da reunião, realizada no Sindicato Rural de Alfenas, a ministra e demais autoridades estaduais visitaram a lavoura de café da Fazenda Primavera para verificar de perto as perdas na produção do grão.

A secretária Estadual de Agricultura de Minas Gerais, Ana Maria Valentin, disse que o governo estadual irá fazer um levantamento da atual situação de cada lavoura atingida: “De primeira ordem, o que o estado pode fazer é um laudo bem feito e fidedigno do que está enfrentado, o que cada produtor perdeu para saber quem sofreu mais e o que cada um irá precisar”.

O presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro, também participou da reunião em Alfenas. Segundo ele, o produtor de café carrega sempre consigo o risco de que as intempéries assolem suas plantas, deixando-o preocupado com as mudanças climáticas. “Por isso, devemos adotar cautela máxima para propagarmos percentuais reais do impacto na produção. Isso porque, necessariamente, cada comentário, cada foto ou vídeo publicado, gera muitas incertezas no mercado”, alertou.

Dessa forma, o CNC “irá aguardar os possíveis impactos de uma nova frente fria, anunciada para o próximo dia 29, que juntamente com a última geada ocorrida no dia 20, serão avaliadas com os demais membros do Conselho Deliberativo da Política do Café (CDPC) e, em especial, com a Secretaria de Política Agrícola (SPA/MAPA), o Departamento de Comercialização e Abastecimento, e a ministra Tereza Cristina, no sentido de desenvolver um programa/projeto que vise atender aqueles que, efetivamente, venham necessitar de financiamento para manter-se na atividade”.

A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), diz que nesse momento de perdas, os produtores devem procurar alguns mecanismos de apoio. Segundo Ana Carolina Alves Gomes, analista de agronegócios da Faemg, os produtores podem recorrer a três ações neste momento.

“Aqueles que tiverem o seguro rural devem notificar as seguradoras e solicitar a sua indenização. O segundo ponto seria o crédito para recuperação dos cafezais danificados, que pode ser acessada pelo Funcafé. Em caso de necessidade, os produtores também podem pedir a renegociação ou prorrogação das dívidas”.

MONITORAMENTO – O Inmet disponibilizou a Plataforma de Monitoramento de possíveis Geadas no Brasil, que traz um mapa de possíveis ocorrências de geadas baseado nos dados registrados pelas Estações Meteorológicas Automática.

Ao clicar nos balões disponíveis no mapa, é possível capturar o dia, a temperatura e a possível ocorrência. Na tabela também são oferecidas as mesmas informações. No mapa, as informações serão agregadas com o decorrer do tempo. Além disso, é possível pesquisar o registro de geadas, até os últimos 30 dias.

Previsão é de frio mais intenso na próxima semana

Os cafeicultores ainda estão apreensivos, pois institutos de meteorologia estão prevendo dias de frio ainda mais intenso nesta semana. Uma massa de ar frio intensa pode causar a temperatura mais baixa do século no Brasil. Nos locais mais extremos da região Sul, a sensação térmica pode chegar a -25°C, com alta probabilidade de neve, segundo a MetSul Meteorologia.

Os estudos divulgados pela empresa de meteorologia ainda são preliminares e devem ser confirmados neste final de semana ou na segunda-feira (26). A massa de origem polar intensa deve começar entre terça e quarta-feira da próxima semana e se estender até o final da semana.

Segundo modelos numéricos analisados pela MetSul, a temperatura será inferior às do final de junho e início de julho desse ano. Os meteorologistas dizem que um fenômeno assim foi registrado em julho de 2000 e de 2007. Regiões com altitude acima de 1.800 metros, como o Morro da Igreja (SC), devem ter sensação térmica entre -20°C e -25°C.

Já o Rio Grande do Sul deve experimentar até -20°C de sensação térmica, com a mínima nos termômetros de até -5°C. Se o estudo for confirmado no final de semana, cidades de São Paulo e de Mato Grosso do Sul podem ter geadas, com sensação térmica de 0 °C. A probabilidade de nevar em áreas de maior altitude também é grande, segundo o MetSul. Mas as projeções ainda podem sofrer alterações, podendo variar negativa ou positivamente em relação aos termômetros.

Os sites do Climatempo e do Inmet também confirmam as previsões de frio extremo, mas adotando um tom mais conservador ao noticiar a frente fria que, segundo as empresas, promete trazer as temperaturas mais baixas do ano.

A expectativa é de neve nas serras gaúchas e catarinense. De acordo com o Inmet, as temperaturas mínimas previstas “em uma ampla área” da região Sul irão variar entre – 6ºC e – 8°C na manhã de sexta-feira (30). Mas há um indicativo de “temperaturas menores do que – 8°C” nas áreas de maior altitude dos estados do sul, motivando a previsão da possível queda de neve entre os dias 29 e 30 deste mês.

O Climatempo informou que esta pode ser a onda de frio mais forte deste ano e vai, mais uma vez, causar geada ampla em praticamente toda a região Sul, assim como em áreas do Mato Grosso do Sul, São Paulo e sul de Minas Gerais.

“Além do frio, o tempo também fica muito seco, com pouca variação de nebulosidade e umidade do ar que caí a índices críticos nas horas mais quentes do dia. Inclusive, a sensação de frio pode ser maior, pois a tarde as temperaturas conseguem subir, caracterizando uma grande amplitude térmica, ou seja, noites e manhãs frias e tardes mais quentes”, informou o instituto.

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