Resistência a antimicrobianos coloca pecuária mundial sob pressão e amplia desafios para o agro brasileiro

Foto: Pixabay

O avanço da resistência antimicrobiana na produção animal tem acendido um alerta global e colocado a pecuária diante de um dos maiores desafios das próximas décadas. Um relatório recente da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) aponta que, mantidas as tendências atuais, o uso de antimicrobianos na pecuária mundial poderá crescer cerca de 30% até 2040, aumentando os riscos sanitários e econômicos para o setor.

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O tema ganha relevância em um momento em que mercados internacionais ampliam as exigências relacionadas à rastreabilidade, ao bem-estar animal e ao uso responsável de medicamentos veterinários. Como um dos maiores exportadores mundiais de carne bovina, suína e de frango, o Brasil está diretamente inserido nesse cenário e enfrenta pressão crescente para demonstrar conformidade com padrões internacionais.

Recentemente, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos pecuários ao bloco, alegando insuficiência de garantias documentais sobre o uso racional de antimicrobianos na produção animal. O governo brasileiro trabalha para atender às exigências europeias e evitar impactos sobre um mercado que movimenta cerca de US$ 1,8 bilhão por ano.

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A preocupação não se restringe ao continente europeu. No Reino Unido, entidades ligadas à saúde pública defendem medidas mais rígidas para restringir a importação de carnes produzidas com o uso de promotores de crescimento antimicrobianos. A proposta reflete uma tendência internacional de endurecimento das regras relacionadas ao uso desses medicamentos na cadeia produtiva.

Impactos econômicos podem ultrapassar US$ 300 bilhões

Segundo a FAO, o uso excessivo de antimicrobianos favorece o surgimento de bactérias resistentes aos tratamentos convencionais. Quando expostos repetidamente aos medicamentos, microrganismos podem desenvolver mecanismos de defesa, tornando infecções mais difíceis de controlar e reduzindo a eficácia dos tratamentos veterinários.

As consequências vão além da saúde animal. O relatório estima que as perdas acumuladas para a pecuária mundial possam alcançar US$ 318 bilhões até 2040 em um cenário de elevada resistência antimicrobiana. O valor supera significativamente os investimentos necessários para implementar sistemas produtivos menos dependentes desses medicamentos.

Para especialistas, o desafio está justamente no equilíbrio entre produtividade e prevenção. Enquanto investimentos em biossegurança, vacinação, assistência veterinária e melhorias no manejo geram custos imediatos, os benefícios aparecem no longo prazo, com menor pressão sobre a resistência bacteriana e maior eficiência sanitária dos rebanhos.

Produção intensiva exige novas estratégias sanitárias

Em sistemas pecuários intensivos, os antimicrobianos são utilizados principalmente para tratar doenças e prevenir infecções. Em alguns países, também são empregados como promotores de crescimento animal, prática que vem sendo progressivamente restringida por diferentes mercados consumidores.

A substituição desse modelo, entretanto, não é simples. Em diversas regiões do mundo, especialmente em países em desenvolvimento, os antibióticos ainda representam uma alternativa mais acessível do que investimentos estruturais em prevenção sanitária. Sem apoio técnico e financeiro, produtores podem enfrentar aumento de custos e redução temporária da produtividade.

Diante desse cenário, a FAO defende que a resistência antimicrobiana seja tratada não apenas como uma questão de saúde pública, mas também como um tema estratégico para a segurança alimentar global e para a sustentabilidade econômica da produção animal.

Brasil está no centro das discussões globais

As projeções indicam que a América do Sul deverá responder por quase 20% do consumo mundial de antimicrobianos na produção animal até 2040. O dado coloca o Brasil em posição de destaque nas discussões sobre como ampliar a oferta de alimentos sem aumentar os riscos associados à resistência bacteriana.

Para o agronegócio brasileiro, o desafio será equilibrar crescimento produtivo, competitividade internacional e adequação às exigências sanitárias cada vez mais rigorosas dos mercados importadores. A capacidade de avançar em práticas sustentáveis e no uso responsável de medicamentos poderá se tornar um diferencial estratégico para manter e ampliar a presença dos produtos brasileiros no comércio global.

Fonte: FAO

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