Uma nova fonte de renda no campo depende de regras que ainda estão sendo escritas
Foto: Freepik

O mercado de carbono deixou de ser um assunto distante da realidade do produtor rural brasileiro. Com a aprovação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e o avanço de iniciativas privadas, cresce o interesse de agricultores e pecuaristas em entender como práticas já adotadas em suas propriedades podem se transformar em créditos negociáveis.
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Cada crédito de carbono equivale a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO2eq) que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera por um projeto específico. Práticas como plantio direto, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, recuperação de pastagens e sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta estão entre as atividades que podem gerar esse tipo de crédito no setor agropecuário.
Esses créditos circulam em dois ambientes distintos. Há o mercado regulado, no qual empresas compram créditos para cumprir metas obrigatórias impostas por lei, e o mercado voluntário, em que companhias adquirem créditos por iniciativa própria, para cumprir compromissos assumidos voluntariamente com a sustentabilidade. No Brasil, a produção primária agropecuária não terá metas obrigatórias de redução de emissões dentro do SBCE, mas poderá gerar créditos elegíveis para venda a setores que precisam se adequar às novas regras.
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Para que um crédito seja reconhecido, o projeto precisa seguir uma metodologia específica, seja para o mercado voluntário, seja para o SBCE. O processo passa por etapas como elaboração de documentação técnica, validação por auditor independente, registro junto a uma certificadora, monitoramento contínuo das atividades e, só então, a emissão dos créditos para comercialização. Esses projetos costumam ter caráter de longo prazo, entre 30 e 40 anos, o que exige planejamento e capacidade financeira para sustentar o compromisso ao longo do tempo.
Como o produtor pode se encaixar nesse mercado
O produtor rural pode atuar tanto como proprietário da área onde o projeto é desenvolvido quanto como executor direto das práticas de manejo. Em geral, um desenvolvedor de projeto é responsável por planejar as atividades e garantir que estejam de acordo com a metodologia escolhida, dando apoio técnico ao produtor durante a implementação. Já a certificadora e os auditores independentes atestam se as reduções ou remoções de emissões realmente aconteceram.
Existem metodologias específicas voltadas à agropecuária, embora muitas tenham sido desenvolvidas originalmente para a realidade da Europa e dos Estados Unidos, o que nem sempre reflete as condições do clima tropical brasileiro. Entre as atividades reconhecidas por essas metodologias estão o preparo reduzido do solo, o manejo aprimorado de pastagens, a substituição de fertilizantes sintéticos por orgânicos e a semeadura de espécies com raízes mais profundas, entre outras práticas que ajudam a reter carbono no solo.
Produtores com áreas menores podem enfrentar dificuldade para atingir o tamanho mínimo exigido pelos projetos. Nesses casos, uma alternativa é reunir forças com associações, sindicatos ou cooperativas, unindo várias propriedades em um único projeto para viabilizar o acesso ao mercado.
Vantagens que vêm acompanhadas de riscos
Entrar no mercado de carbono pode representar renda extra para quem já adota boas práticas agrícolas, além de contribuir para o aumento de produtividade graças à melhoria da qualidade do solo. Também é possível ganhar em reputação, o que facilita o acesso a mercados mais exigentes, e abrir portas para novas fontes de financiamento.
Por outro lado, o processo de certificação costuma ser burocrático e caro, e nem sempre há garantia de que as reduções prometidas serão realmente entregues, o que compromete o investimento feito. Também existem incertezas sobre a demanda futura e o preço que esses créditos agropecuários vão alcançar, além da exigência, em algumas metodologias, de comprovar que não houve desmatamento de vegetação nativa nos últimos 10 a 20 anos.
Por isso, especialistas recomendam que o produtor encare esse mercado como uma extensão de práticas sustentáveis já em curso na propriedade, e não como uma atividade separada capaz de gerar renda isolada, semelhante a uma nova safra. A avaliação cuidadosa dos custos, prazos e exigências de cada metodologia costuma ser o primeiro passo antes de qualquer decisão.
Fonte: CNA
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