Projeto seleciona 20 produtores capixabas para testar uvas de inverno e criar rota de vinhos finos
Fotos: Julio Huber

Texto: Bruno Caetano
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O Espírito Santo quer entrar no mapa dos vinhos finos do Brasil. O pontapé inicial começou durante o seminário Uvas de Inverno e Enoturismo, dentro da programação da RuralturES, quando o Sebrae/ES lançou o edital do projeto Vines, que vai selecionar 20 produtores capixabas para testar o cultivo de uvas de inverno em suas propriedades.
A ideia por trás do projeto resolve um problema conhecido de quem já tentou fazer vinho no Espírito Santo. No sistema tradicional, a colheita acontece no verão, época de mais chuva nas regiões serranas, o que compromete a qualidade da uva. O Vines quer inverter esse calendário, deslocando a colheita para os meses secos do inverno, e com isso abrir caminho para uma cadeia que una agricultura familiar, vinicultura e turismo.
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Quem coordena a execução do projeto no Estado é o Sebrae/ES. A assistência técnica especializada será do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/ES), com acompanhamento do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). A intenção e garantir a qualidade, a sustentabilidade da produção e a integração com o turismo de experiência.
O superintendente do Sebrae/ES, Pedro Rigo, explica que a proposta é avaliar o potencial produtivo das uvas de inverno Espírito Santo e criar as condições para que uma futura cadeia vitivinícola se conecte ao turismo. “A ideia é agregar valor à produção rural e diversificar as experiências oferecidas aos visitantes, especialmente nas regiões de montanha”, diz.

Faltava, segundo ele, acertar a variedade e o manejo certo. “O que todo mundo faz em outros estados é trabalhar com uvas próprias para vinho fino, como Chenin, Merlot, Cabernet Franc, já testadas pela Epamig com apoio da Embrapa. Aqui, quem colhe uva em dezembro e janeiro, em plena chuva, não consegue teor de açúcar adequado. Quando entendemos isso, tudo mudou”, explica Rigo.
O governo do estado também entrou no projeto. Para o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, o investimento feito pela Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) e pelo Incaper no projeto tem um objetivo direto: gerar conhecimento e tecnologia próprios para as regiões mais frias do Espírito Santo.
“Isso serve tanto para diminuir o risco de quem já está empreendendo quanto para dar maior segurança e confiabilidade para novos entrantes nesse arranjo, especialmente os agricultores familiares”, afirma.
Regras do edital priorizam quem já vive da terra

As inscrições seguem abertas até a próxima sexta-feira (28), e a lista de selecionados sai em 18 de setembro, depois de uma avaliação técnica que conta com especialistas da Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno (Anprovin).
Quem entrar no projeto terá apoio de uma das três unidades experimentais de cultivo, instaladas em Domingos Martins, Santa Teresa e Venda Nova do Imigrante. Ao todo, serão 30 mil mudas de variedades como Syrah, Cabernet Franc e Sauvignon Blanc, escolhidas pelo potencial de adaptação ao clima e ao solo dessas regiões.
O investimento gira em torno de R$ 3 milhões, bancados pelo Sebrae/ES e pelo Incaper, numa parceria que envolve ainda o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e que vai acompanhar o desempenho das variedades por cinco anos.
O edital dá prioridade a agricultores familiares com propriedades acima de 600 metros de altitude, faixa considerada mais favorável ao cultivo de uvas de inverno. A coordenadora do projeto Vines e analista do Sebrae/ES, Jhenifer Soares, avisa que é preciso paciência, já que os primeiros resultados só devem aparecer a partir do terceiro ano. “A proposta é criar uma base técnica para que o produtor possa avaliar a viabilidade do cultivo de uvas de inverno no Espírito Santo e, a partir dos resultados, ampliar essa atividade”, diz.
Além das mudas, os selecionados terão acompanhamento de uma pesquisadora contratada pelo Incaper especialmente para o tema. O instituto também vai instalar microestações meteorológicas nos municípios participantes, para monitorar as variáveis climáticas que mais pesam no desenvolvimento das videiras, e vai acompanhar de perto pragas e doenças ao longo do ciclo.
Por que o inverno muda tudo na hora de fazer vinho fino
A técnica que sustenta o projeto se chama dupla poda, ou poda invertida. Na prática, a videira passa o ciclo de verão em formação, e só depois recebe a poda de produção, o que empurra a maturação e a colheita para os meses mais secos e frios do ano, justamente quando chove menos e as noites ficam mais frias.
Foi o engenheiro agrônomo Murillo Regina, sócio-fundador da Vitácea Brasil, quem desenvolveu e aprimorou esse método, hoje referência no país em viticultura de inverno. Na palestra de encerramento do seminário realizado durante a RuralturES, ele resumiu por que isso importa tanto para um vinho de qualidade.
“O detalhe é fazer a uva iniciar a maturação no período seco, proporcionando tanino maduro, o que é o segredo do vinho fino em qualquer lugar do mundo. Temos condições de fazer vinhos de qualidade excelente”, disse.
A pesquisadora do Incaper no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Serrano (CPDI Serrano), Girlaine Pereira Oliveira, também ajuda a explicar o cenário mais amplo. Segundo ela, a videira é tradicional na Região Serrana, mas vem perdendo área plantada nos principais polos do estado, puxada pelo alto custo das mudas, pelo controle fitossanitário e pela falta de assistência técnica.

O Brasil, lembra Girlaine, trabalha com três sistemas de cultivo: o tradicional, com poda no inverno e colheita no verão; o tropical, do Nordeste, que permite duas safras por ano; e a dupla poda, que inverte esse ciclo. “No Espírito Santo, temos áreas bastante distintas em relação ao clima e ao relevo, aumentando as possibilidades a serem exploradas”, afirma.
Para ela, ainda não dá para cravar que o cultivo de uvas finas de inverno é totalmente viável no estado, mas os sinais são bons. “Já temos produtores que estão produzindo vinhos de inverno por meio da dupla poda no Espírito Santo, e experiências em outros estados com características semelhantes à nossa realidade têm apresentado bons resultados quando associadas ao enoturismo”, pondera.
O Incaper montou um projeto de pesquisa próprio, complementar ao Vines, dividido em cinco frentes: novas variedades, implementação da dupla poda, manejo fitossanitário voltado a doenças fúngicas, mitigação de riscos e avaliação da qualidade dos frutos.
Como parte desse trabalho, o pesquisador Samuel Coura fez um mapeamento preliminar das áreas mais propícias ao cultivo, usando o protocolo da Anprovin, e encontrou regiões capixabas com clima e altitude parecidos com os de áreas já consolidadas em Minas Gerais e São Paulo.
O diretor técnico do Incaper, Antônio Elias da Silva, resume o papel da instituição nessa equação. “Estamos aplicando o conhecimento de anos de pesquisa para adaptar as variedades e tecnologias ao clima capixaba. O resultado será uma produção técnica, com identidade própria”, diz.
Produtores já colhem no inverno há anos

Enquanto o edital seleciona a próxima leva de produtores, alguns capixabas já vivem essa rotina invertida há tempo e servem de referência prática para o projeto. É o caso de Vinicius Corbellini, enólogo e sommelier à frente da Vinícola Tabocas, no Vale do Tabocas, em Santa Teresa.
A vinícola é de produção familiar e aposta em vinhos finos de pequena escala e maior valor agregado, buscando expressar o terroir de Santa Teresa. As principais variedades trabalhadas são Cabernet Sauvignon e Alvarinho, que dão origem a diferentes rótulos, incluindo lotes especiais de produção bem limitada.
A dupla poda já faz parte do dia a dia da propriedade, sobretudo na Cabernet Sauvignon. “Isso é especialmente interessante nas nossas condições porque reduz a coincidência da maturação das uvas com os períodos de maior precipitação”, explica Corbellini.

O manejo, no entanto, não veio pronto de outros estados. Precisou ser ajustado ao Vale do Tabocas, já que solo, altitude, regime de chuvas e comportamento da planta mudam de região para região.
Para ele, não existe fórmula pronta, e a atividade exige domínio técnico. “Quando se consegue controlar produção, sanidade, maturação e rendimento por planta, é possível obter uvas com excelente concentração de açúcares, fenólicos e aromas”, afirma.
PRÊMIO – Como prova, cita o próprio resultado da vinícola. O Cabernet Sauvignon de inverno, colhido com uvas que chegaram a cerca de 30° Brix e envelhecido oito meses em carvalho francês, recebeu Grande Ouro e 92 pontos no Wines of Brazil Awards.
“Isso demonstra que o Espírito Santo não precisa competir apenas em quantidade. Existe uma oportunidade muito interessante na produção de vinhos de origem, de pequena escala e alto valor agregado”, diz.
É por já ter enfrentado esse caminho sozinho que Corbellini enxerga valor no Vines. Para ele, o maior obstáculo sempre foi a falta de dados técnicos pensados para a realidade capixaba.
“Durante muito tempo, quem decidiu produzir uvas para vinho no Espírito Santo teve que utilizar referências de outras regiões brasileiras. Essas informações são importantes, mas nem sempre podem ser transferidas diretamente para nossa realidade”, diz.
Testar variedades, porta-enxertos e manejos nas condições locais, segundo ele, começa a construir esse conhecimento próprio, reduzindo riscos para quem está entrando agora.
Do outro lado das montanhas, produtores se preparam para entrar

Se Corbellini já colhe resultados, do outro lado da Região Serrana há quem esteja se organizando para dar o primeiro passo. Em São Bento de Urânia, distrito de Alfredo Chaves, o produtor Jandir Gratieri vai se inscrever no Vines ao lado de outro produtor da região, com um objetivo de melhorar os vinhos artesanais de mesa que já produzem.
Gratieri considera o projeto importante sobretudo pela visibilidade que pode dar ao Estado. “Iniciativas assim ajudam a firmar o Espírito Santo como produtor de vinho com identidade própria, mesmo que ainda seja cedo para saber até onde o projeto vai avançar”, diz.
Mesmo sem fazer parte formalmente do grupo de produtores de vinho fino, Gratieri já vem se qualificando por conta própria. “Eu resgatei uma variedade antiga de uva, o ‘moscatel roxão’, que se adaptou bem à propriedade e chamou atenção até de técnicos que acompanham o projeto”, conta.
Segundo ele, já é possível ver cachos este ano e produzir um pequeno volume de garrafas. Ele também aposta no efeito do projeto Vines sobre o turismo da região, que já tem uma rota desenhada em São Bento de Urânia. “O visitante de hoje busca experiência, não só o produto final, e voltar à região faz parte desse movimento”, resume.
Vinhos que viram roteiro turístico

Um dos primeiros lugares do Espírito Santo a receber o plantio de variedades próprias para vinho fino foi a Casa Nostra, no Distrito Turístico de Pindobas, em Venda Nova do Imigrante. O parreiral, com 160 plantas, funciona como experimento para acompanhar o desenvolvimento de cinco variedades e já virou ponto disputado para fotos entre quem visita o complexo.
A gerente adjunta da regional Serrana do Sebrae/ES, Karla Fernanda Cardoso, conta que a vontade de plantar uvas ali já existia antes do projeto. “Como em toda casa de italianos sempre tinha uma parreira de uva, já tínhamos a intenção de fazer um plantio na Casa Nostra. E no zoneamento que apontou as regiões propícias para o plantio de uvas de inverno, Venda Nova do Imigrante faz parte”, diz.
O produtor Gustavo Gomes Vervloet, da vinícola Cave Rara, também em Venda Nova do Imigrante, resume por que o inverno favorece tanto a qualidade da fruta. “Durante o inverno, as noites frias e os dias secos ajudam a concentrar o açúcar e manter a acidez das uvas. O resultado é uma fruta equilibrada, com grande potencial enológico”, afirma.
Para Pedro Rigo, é justamente nesse ponto que o Vines ganha um sentido maior do que o agrícola. Segundo ele, o projeto reconecta o Espírito Santo a uma herança das colônias italianas e transforma essa tradição em oportunidade econômica. “O vinho passa a ser uma experiência capixaba autêntica, que une história, sabor e identidade”, finaliza.
Serviço – Edital Projeto Vines
Inscrições: até 28 de agosto
Previsão de divulgação dos selecionados: 18 de setembro
Informações e inscrições: https://sebrae.com.br/es/sobre-nos/projeto-vines
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