Aquecimento do oceano já altera recifes no Espírito Santo e preocupa pesquisadores da Ufes

Foto: PELD-HCES

Pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo identificaram mudanças significativas nos recifes costeiros capixabas associadas ao aumento da temperatura do oceano Atlântico. O alerta surge após um estudo científico que analisou os efeitos de ondas de calor marinhas na região de Aracruz, no litoral norte do Estado. Os resultados indicam que o aquecimento do mar já está provocando transformações na vida marinha e no equilíbrio dos ecossistemas recifais.

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A investigação foi conduzida pelo Grupo de Ecologia Bêntica, ligado ao Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes, e acompanhou a dinâmica das comunidades que vivem na faixa entre a maré alta e a maré baixa — ambiente ocupado por organismos como algas, moluscos e crustáceos. O monitoramento ocorreu entre dezembro de 2017 e maio de 2022 em um recife rochoso da Praia de Gramuté, área inserida na Área de Proteção Ambiental Costa das Algas. O trabalho científico foi publicado no fim de fevereiro na revista internacional PeerJ.

Para compreender o fenômeno, os pesquisadores combinaram dados de satélites da Nasa e da Agência Espacial Europeia com observações diretas em campo. Durante quatro anos, a equipe realizou visitas mensais ao local para acompanhar as mudanças nas rochas e nos organismos marinhos. Nesse período, foram identificados 22 episódios de calor extremo no oceano. Um dos mais intensos ocorreu em 2019, quando as temperaturas permaneceram elevadas por 47 dias consecutivos, chegando a até 4 graus acima da média histórica.

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Segundo o professor do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes e coordenador científico do estudo, Angelo Bernardino, os resultados indicam uma forte relação entre esses eventos e as transformações observadas nos recifes. De acordo com ele, mais de 80% das mudanças registradas na cobertura das comunidades marinhas estão associadas às ondas de calor, que funcionam como aceleradores de processos ambientais que normalmente levariam décadas para ocorrer.

A pesquisa também apontou que o impacto do aquecimento se intensifica quando coincide com períodos de maré baixa. Nessas situações, muitos organismos ficam expostos ao ar, o que aumenta o estresse térmico e pode comprometer a sobrevivência das espécies locais.

Entre as alterações mais evidentes está a redução das chamadas “florestas” de algas marrons e vermelhas, fundamentais para o equilíbrio do ambiente marinho. Essas algas funcionam como abrigo e fonte de alimento para diversos organismos e perderam cerca de 38% de sua cobertura durante o período analisado. No lugar delas, começaram a surgir pequenos corais e invertebrados de crescimento rápido.

Os cientistas alertam que essa mudança vai além da paisagem submarina. A substituição das algas altera o funcionamento do ecossistema, podendo afetar a produtividade costeira, o ciclo de nutrientes e até as cadeias alimentares marinhas.

Nos anos mais recentes, os pesquisadores observaram uma recuperação gradual das algas na área monitorada. Ainda assim, a comunidade marinha não retornou ao padrão anterior. Para os cientistas, o cenário reforça a importância do acompanhamento contínuo das áreas costeiras, já que a frequência das ondas de calor no oceano tende a aumentar nas próximas décadas.

O estudo contou ainda com a participação de estudantes de graduação em Oceanografia e pesquisadores dos programas de pós-graduação em Oceanografia Ambiental e em Biologia Animal da Ufes, reforçando o papel da universidade no monitoramento dos impactos das mudanças climáticas no litoral capixaba.

Fonte: Ufes

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