Tradições de Páscoa resistem ao tempo em Venda Nova do Imigrante
Fotos: Divulgação e Julio Huber

Julio Huber
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Ainda está escuro quando os primeiros passos começam a ecoar pelas estradas de chão em Pindobas, interior de Venda Nova do Imigrante. Conversas baixas e o som do vento entre as montanhas acompanham o grupo que, pouco a pouco, segue subindo em direção ao antigo cruzeiro.
Todos os anos, no início da manhã da Sexta-Feira Santa, moradores se reúnem para repetir um gesto simples, mas carregado de significado: caminhar juntos até o alto da montanha para rezar e refletir sobre a Paixão de Cristo. A tradição atravessa gerações e continua sendo um dos momentos mais simbólicos da Semana Santa na comunidade.
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Para muitos, a caminhada é também uma forma de manter vivas práticas que marcaram profundamente a história cultural e religiosa da região. Jaqueline Andreão sempre participa da caminhada. Ela contou que são sete quilômetros até o alto do morro.
“Saímos da igreja por volta de 6h da manhã e seguimos pela rodovia Pedro Cola. Depois entramos em direção a Sapucaia. No alto, pegamos uma estrada de chão e subimos até o cruzeiro, que fica na pedra onde estão as torres de telefone, atrás da igreja. Por volta de meio dia estamos retornando”, disse.

Ao longo do caminho, os participantes fazem paradas para rezar e refletir sobre os momentos da Paixão de Cristo, já que durante o trajeto é feita a Via Sacra, com as paradas ao longo do percurso. Mesmo quem participa pela primeira vez rapidamente percebe que a experiência vai além de uma simples caminhada.
Todos os anos é levada uma nova cruz, que é fincada ao lado do antigo cruzeiro. Quando se chega ao topo, o cruzeiro se destaca no alto da paisagem montanhosa que marca o interior de Venda Nova do Imigrante. Ali, muitos fazem orações, agradecimentos e pedidos. Também é feito um piquenique, com todos compartilhando o que levaram e aproveitando para admirar a paisagem do alto. No pátio da igreja também é feita uma Via Sacra, com a participação daqueles que não subiram o morro.
Fé motivou a construção
O morador Josélio Tessaro, que participa da caminhada há vários anos, relembra como começou a tradição do cruzeiro. Segundo ele, antigamente a Via Sacra era feita apenas no pátio da igreja, mas a fé motivou a construção do cruzeiro no alto da pedra.

“Certa vez se cogitou de colocar um cruzeiro no alto da pedra, mas a tora que seria levada era muito pesada. O padre então subiu em cima da madeira e pediu para que ela fosse levantada. Pela fé do povo, eles ergueram a tora, com o padre em cima. Depois tiveram o ânimo e a fé para levar o cruzeiro até o alto”, conta.
Naquela época, outras comunidades já faziam caminhadas, e os fiéis de Pindobas também passaram a fazer. “Depois que o cruzeiro foi instalado no alto do morro, caiu um raio e desmanchou todo. Mas os moradores decidiram levar outro. O primeiro foi montado no pátio da igreja e foi levado inteiro, mas o segundo era muito maior e teve que ser levado em partes e montado lá no alto”, relatou.
Uma Semana Santa muito diferente
Se hoje algumas tradições continuam vivas, outras permanecem apenas na memória de moradores mais antigos. Aos 85 anos, Ângelo Falchetto, o Angelim, guarda lembranças de uma época em que a Semana Santa transformava completamente o ritmo da vida na comunidade.
Segundo ele, de Quinta-Feira Santa até o Domingo de Páscoa as famílias iam à igreja duas vezes por dia. “Era muito diferente de hoje. A gente ia de manhã e depois voltava à tarde. Era um tempo muito respeitado”, recorda.

Pela manhã acontecia a cerimônia chamada de Trevas, marcada por cantos e por um grande castiçal com várias velas. Durante a celebração, uma vela era apagada de cada vez, até que a igreja mergulhasse na escuridão. O período também era marcado por silêncio e respeito. “Nem o moinho podia moer. Não podia barulho alto, festa, jogo de carta. Era tudo mais recolhido”, recorda.
CULINÁRIA – A Páscoa também sempre teve seu lugar na cozinha das famílias. As refeições eram simples, mas cheias de significado. Entre os pratos mais comuns estavam o arroz-doce, a paçoca e os ovos cozidos. Para colorir os ovos, as famílias utilizavam a casca da madeira de peroba, que deixava os ovos com uma tonalidade avermelhada.
Quando Angelim era jovem, não existia a tradição da torta capixaba como é nos dias atuais. “Eles faziam algumas coisinhas, mas a torta era uma coisa mais sofisticada para aquela época. As coisas dos nossos pais eram muito simples. Tinha palmito, ovos, peixe. Mas não a torta”, disse.
BRINCADEIRAS – Os ovos, depois de pintados, também viravam parte de uma brincadeira tradicional. As pessoas tentavam jogar uma moeda sobre o ovo colocado em uma superfície. Se a moeda ficasse presa, quem jogava ganhava o ovo. “Era uma brincadeira que o pessoal fazia perto da igreja”, lembra Angelim. Em Pindobas, no Domingo de Páscoa essa brincadeira ainda é feita até os dias atuais.
Flores para celebrar a ressurreição
Entre as lembranças mais bonitas de Angelim está a procissão realizada na madrugada do Domingo de Páscoa. Na véspera, as famílias saíam para colher flores, principalmente pétalas de rosa, que eram guardadas em sacolas.
Durante a procissão, quando o Santíssimo passava pelas ruas da comunidade, adultos e crianças espalhavam as pétalas pelo chão. “Era flor para todo lado. A gente ia jogando no caminho por onde o padre passava”, recorda. O gesto simples transformava as ruas em um grande tapete colorido para celebrar a ressurreição.
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