Solo saudável, clima mais estável: como um programa brasileiro tenta reinventar a lavoura
Foto: NKG Stockler

O aquecimento global já não é uma ameaça distante para quem vive da terra. Safras mais instáveis, solos desgastados e um clima cada vez mais imprevisível colocam em risco a produção de alimentos e a renda de milhões de produtores. Diante desse cenário, uma iniciativa brasileira tenta mostrar que é possível produzir mais sem esgotar os recursos naturais, e ainda ajudar a retirar carbono da atmosfera.
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A ideia central é simples de entender, embora complexa de executar. Em vez de explorar o solo até o esgotamento, a chamada agricultura regenerativa busca recuperar sua vitalidade por meio de técnicas como rotação de culturas, uso de plantas de cobertura e sistemas de plantio que evitam o revolvimento excessivo da terra. O resultado esperado vai além da produtividade: solos mais saudáveis também passam a armazenar mais carbono orgânico, retirando-o do ciclo atmosférico e contribuindo para reduzir o efeito estufa.
Para testar e comprovar esses benefícios em larga escala, pesquisadores do CCARBON, centro vinculado à Universidade de São Paulo, uniram forças com outras instituições brasileiras. Assim surgiu o Carbon Farming, um programa de cooperação entre setor público e privado liderado pela empresa Bayer.
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A iniciativa reúne 11 instituições parceiras, entre universidades, centros de pesquisa e organizações de produtores rurais, formando uma rede de trabalho multidisciplinar. Participam do programa cerca de 1,9 mil agricultores, cujas propriedades somam mais de 230 mil hectares em regiões com diferentes tipos de solo e condições climáticas. Nessas áreas, os cientistas avaliam o impacto de práticas como plantio direto, diversificação de culturas e uso de plantas de cobertura sobre a saúde do solo e o rendimento das lavouras.
O trabalho não se limita a observar o presente. Uma das frentes do programa é o desenvolvimento de um modelo matemático que busca prever como o carbono orgânico do solo vai se comportar em ecossistemas agrícolas tropicais ao longo do tempo. Para isso, os pesquisadores conduzem experimentos de diferentes durações, alguns com menos de cinco anos e outros com mais de duas décadas de acompanhamento, distribuídos por importantes regiões produtoras de grãos do país.
Participam especialistas de universidades públicas, fundações de pesquisa e da Embrapa, avaliando o equilíbrio entre sequestro de carbono e emissão de gases de efeito estufa, além da produtividade das culturas e do retorno financeiro para o produtor. A expectativa é que esses dados sirvam de base para decisões mais precisas no campo e fortaleçam a posição do agronegócio brasileiro em um mercado de carbono cada vez mais relevante no cenário global.
Uma tendência que já é global
O Brasil não caminha sozinho nessa frente. Nos Estados Unidos, a National Corn Growers Association mantém a Soil Health Partnership, projeto que reuniu mais de 200 produtores em nove estados para comparar, ao longo de cinco anos, diferentes práticas de conservação do solo. Na Europa, a Comissão Europeia também promove, por meio de programas voltados a ciclos sustentáveis de carbono, incentivos para que os setores agrícola e florestal adotem práticas mais alinhadas à proteção climática.
Entre os ganhos já observados em iniciativas desse tipo estão o aumento da biodiversidade, favorecendo predadores naturais que ajudam no controle de pragas, a melhor ciclagem de nutrientes, maior retenção de água no solo e o aumento do carbono armazenado. Esses fatores tornam as lavouras menos dependentes de insumos externos e podem gerar maiores retornos econômicos para os produtores.
Especialistas apontam que a agricultura regenerativa, do jeito como vem sendo aplicada em programas como o Carbon Farming, dialoga com pelo menos sete dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, entre eles a erradicação da pobreza, a fome zero, a ação climática e a preservação da vida terrestre.
Isso acontece porque, ao regenerar o solo e reduzir impactos ambientais, o programa também leva em conta fatores sociais e econômicos, olhando para o produtor rural não apenas como agente de produção, mas como parte de um sistema alimentar mais sustentável diante das mudanças climáticas em curso.
Fonte: Ccarbon USP
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