Cooperativas ampliam participação no agro enquanto produtores enfrentam crédito caro
Foto: Julio Huber

Enquanto produtores rurais enfrentam aumento do endividamento, juros elevados e maior dificuldade para acessar crédito, as cooperativas agropecuárias ampliam o volume de negócios e assumem novas funções dentro das cadeias produtivas. O setor reúne atualmente 1,13 milhão de cooperados em 1.254 cooperativas, que movimentaram R$ 487,3 bilhões em 2025, alta de 11,2% em relação ao ano anterior.
Anúncio
Os números fazem parte do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, elaborado pelo Sistema Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). O ramo agropecuário respondeu por 57,4% dos ingressos registrados por todo o cooperativismo brasileiro, consolidando-se como o segmento de maior participação econômica dentro do sistema.
O crescimento ocorre em um período de pressão sobre os produtores. De acordo com a Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio aumentaram 56,4% em um ano. A combinação de custos de produção elevados, juros altos e menor disponibilidade de crédito tem afetado principalmente produtores que dependem de financiamento para custear a safra e manter as atividades.
Anúncio
A estrutura cooperativista oferece algumas ferramentas para reduzir parte dessas dificuldades. Ao concentrar a produção de vários agricultores, as organizações conseguem negociar insumos em maior escala, armazenar produtos, oferecer assistência técnica e buscar diferentes canais de comercialização. A atuação, em muitos casos, também avançou para o processamento e a industrialização.
Da produção à industrialização
O movimento mudou a posição das cooperativas dentro da cadeia do agro. Em vez de atuar somente na recepção e comercialização de produtos agrícolas, muitas passaram a processar grãos, produzir rações, fabricar alimentos e desenvolver marcas próprias. Com isso, parte do valor gerado pelo produto permanece dentro da própria estrutura formada pelos produtores associados.
Os dados da OCB mostram a amplitude dessa diversificação. Entre as cooperativas agropecuárias, 48,7% trabalham com produtos não industrializados de origem vegetal, enquanto 45,1% atuam no fornecimento de insumos e bens. Outras 36,2% trabalham com produtos industrializados de origem vegetal e 29,1% com produtos industrializados de origem animal. Como uma mesma cooperativa pode atuar em mais de uma atividade, os percentuais não somam 100%.
A Lar Cooperativa Agroindustrial é um exemplo desse processo. Criada a partir da associação de pequenos produtores de grãos, a organização ampliou a atuação ao longo dos anos e passou a trabalhar com esmagamento de soja, produção de farelo e óleo e fabricação de rações. A estrutura posteriormente foi integrada às cadeias de frango, suínos, leite e ovos.
A escala alcançada pelo cooperativismo também aparece na produção nacional. As cooperativas respondem por 53% da produção brasileira de grãos e fibras e por cerca de 80% da produção nacional de carne suína. No Paraná, estado com maior movimentação cooperativista, 82 cooperativas agropecuárias reuniam 240,2 mil cooperados e 118 mil empregados em 2025, com R$ 169,13 bilhões movimentados no período.
Tecnologia amplia atuação
A expansão das cooperativas também aumenta a capacidade de incorporar ferramentas tecnológicas à produção. Sistemas de rastreabilidade, monitoramento das propriedades e organização de dados podem ser utilizados para acompanhar milhares de produtores dentro de uma mesma estrutura e atender exigências de compradores.
A rastreabilidade ganhou espaço nas negociações com mercados que exigem informações sobre a origem dos produtos e as condições ambientais da produção. Para as cooperativas, a concentração de dados de diferentes propriedades facilita a criação de sistemas capazes de reunir e verificar essas informações em escala.
O movimento ocorre também na busca por mercados de maior valor agregado. Ao processar a produção e atender exigências de certificação e rastreabilidade, as cooperativas deixam de depender exclusivamente da venda de commodities e passam a disputar etapas em que há maior possibilidade de geração de receita.
Em 2025, as cooperativas agropecuárias movimentaram o equivalente a cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro, estimado em R$ 3,2 trilhões pelo Cepea e pela CNA. Considerando apenas o Valor Bruto da Produção da agropecuária, a participação das cooperativas chega a aproximadamente 33%.
O avanço não elimina os problemas enfrentados pelos produtores, mas mostra como o modelo cooperativista ampliou sua capacidade de atuar em diferentes etapas da cadeia. A combinação de escala, industrialização, assistência técnica, acesso a mercados e tecnologia mantém pequenos e médios produtores integrados a uma estrutura que vai da produção de insumos à comercialização de alimentos.
Anúncio
Anúncio