El Niño forte pode antecipar florada do café e aumentar riscos à saúde

Fotos: Julio Huber

Bruno Caetano

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Um El Niño de forte intensidade deve se consolidar entre outubro e dezembro deste ano, com 81% de probabilidade de ocorrer com essa característica, segundo a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). O fenômeno, provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera o regime de chuvas e as temperaturas em boa parte do Brasil.

Antes mesmo do pico previsto para o fim do ano, os efeitos já começam a aparecer. Enquanto as ondas de calor e temporais aumentam os riscos à saúde da população, a chuva antecipada preocupa os cafeicultores, que pode favorecer floradas fora de época e dificultar a colheita.

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O calor extremo sobrecarrega o organismo, que funciona de forma estável em uma faixa estreita de temperatura, entre 36,6°C e 37°C. É o que explica o médico Luiz Fernando Machado, professor do curso de Medicina do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão, no Paraná.

“O processo de aclimatação ao calor extremo provoca mudanças fisiológicas cruciais, como a elevação da sudorese, resultando na perda de sais minerais e induzindo rapidamente à desidratação, o que sobrecarrega o sistema circulatório”, afirma. 

Para tentar dissipar o calor, os vasos sanguíneos se dilatam e o coração passa a trabalhar mais intensamente, aumentando o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC), especialmente entre pessoas com doenças cardiovasculares.

“O desvio do fluxo reduz a irrigação de órgãos vitais como intestinos e rins. Além disso, a queda abrupta de pressão pode ocasionar desmaios, quedas e fraturas graves”, completa.

Idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis. Sintomas como brotoejas e cãibras costumam ser os primeiros sinais de alerta, mas o quadro pode evoluir para insolação, caracterizada por confusão mental e temperatura corporal acima de 40°C.

Com a chegada das chuvas, os riscos mudam de perfil. O contato com água e lama de enchentes aumenta a chance de leptospirose, transmitida pela urina de ratos, além de hepatite A e gastroenterites provocadas por água ou alimentos contaminados. 

Nos dias seguintes aos temporais, o acúmulo de água parada, aliado ao calor, favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti, elevando o risco de dengue, zika e chikungunya. Também cresce a ocorrência de infecções bacterianas e micoses devido à exposição prolongada à umidade.

Diante desse cenário, Machado recomenda manter hidratação constante, mesmo sem sede, evitar bebidas alcoólicas e excesso de cafeína, usar roupas leves e claras e evitar atividades físicas ao ar livre entre 10h e 16h. Após enchentes, orienta-se evitar contato direto com a água, utilizar equipamentos de proteção durante a limpeza e eliminar semanalmente qualquer foco de água parada.

Chuva antecipada preocupa cafeicultores

Os impactos do El Niño, porém, não se restringem à saúde. No campo, a mudança no comportamento das chuvas já acende o alerta entre os produtores de café. De acordo com o agrometeorologista Marco Antônio dos Santos, da Rural Clima, as regiões produtoras de São Paulo e Minas Gerais devem receber chuvas nos próximos 15 a 20 dias, com o avanço de uma frente fria no fim da primeira quinzena de agosto. 

A avaliação foi apresentada durante o Fórum Café e Clima, promovido pela Cooperativa Regional dos Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), e é apontada pelo especialista como um reflexo do El Niño. “Tem café no chão, perda de qualidade. Dependendo do volume de chuva, além de atrapalhar a colheita, pode induzir novas floradas em meados de agosto”, afirmou. 

Segundo ele, os cafezais já registram queda de frutos. “Teremos mais chuva em agosto e setembro. Essa é uma característica do El Niño: antecipar o regime de chuvas”, acrescentou.

O agrometeorologista destaca ainda que o fenômeno amplia a diferença entre as temperaturas mínima e máxima do dia, favorecendo ondas de calor, ao mesmo tempo em que reduz significativamente o risco de geadas.  “A probabilidade de geadas é bem menor em anos de El Niño. O risco existe, mas é muito menor. Bem diferente da seca e do excesso de chuvas”, pontuou.

Para os próximos meses, Santos projeta agosto com chuva e temperaturas elevadas, setembro também chuvoso, mas com temperaturas próximas da média histórica, e outubro novamente favorecido pelas precipitações nas regiões cafeeiras. Em novembro, no entanto, o cenário pode mudar. 

Bloqueios atmosféricos, formados por bolsões de ar quente sobre a região central do país, podem deslocar as chuvas para o Sul e reduzir as precipitações em áreas como o Cerrado Mineiro e a Mogiana.

“Independentemente da intensidade que esse El Niño vai ter, o pico dele vai ser no final do ano. E quando esse auge acontecer, vai tirar pressão de chuvas das regiões centrais do Brasil e jogar para o Sul do país”, explicou.

Clima muda rotina na lavoura

Para o agrônomo e produtor rural Henrique Contreiro, 27 anos, de Brejetuba, na Região Serrana do Espírito Santo, a instabilidade climática já faz parte da rotina, embora seus efeitos nem sempre sejam percebidos imediatamente.

“No dia a dia, às vezes a gente não percebe o quanto o café é impactado por variações climáticas. Mas quando a gente vai um pouquinho mais a fundo nessa questão, vê que está diretamente ligado. A gente fica muito refém da temperatura, da precipitação e, principalmente, da distribuição dessa chuva. São pequenos detalhes que fazem grandes diferenças no resultado final”, afirma.

Na safra atual, um período de estresse hídrico logo após a florada afetou as lavouras de forma diferente conforme o microclima de cada região. “A nossa região nem tanto. Então a gente está conseguindo um resultado muito bom. Mas vale destacar que um pequeno detalhe, em determinada época de desenvolvimento desse café, pode impactar muito no resultado final”, alerta. 

Na prática, isso alterou o manejo da colheita. Se no ano passado não foi necessária a colheita seletiva, neste ano ela voltou a fazer parte da rotina, exigindo que a equipe passe mais de uma vez pela mesma planta para colher apenas os frutos maduros e preservar a qualidade do café especial.

Mesmo diante da imprevisibilidade do clima, Contreiro destaca a importância de mecanismos que reduzam os prejuízos em anos adversos. Entre eles está o seguro rural, apontado por especialistas como uma das principais ferramentas para dar segurança financeira aos produtores.

“Saber que eu vou ter um recurso que posso contar diante de um imprevisto é importantíssimo. Porque eu sei que, diante de uma dificuldade, tenho caminhos para seguir. Eu não vou ficar sozinho, eu não vou perder a produção. Nenhum produtor acredita que tudo é estático. Todo ano surgem novos desafios”, conclui.

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