Estoques públicos de arroz, feijão e milho entram no período de risco climático em níveis baixos
Foto: Freepik

O Brasil inicia um novo período de risco climático com estoques públicos reduzidos de alguns dos principais produtos da alimentação e da produção agropecuária. Dados consolidados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que, em julho, a União mantinha apenas 293 toneladas de arroz, 207 toneladas de feijão, 6,6 mil toneladas de trigo e 125,5 mil toneladas de milho.
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Os volumes ajudam a explicar medidas adotadas pelo governo federal para recompor parte das reservas. Uma nova autorização permite que a Conab utilize até R$ 500 milhões para a compra de arroz e amplia de 50 mil para 260 mil toneladas o limite de milho que poderá ser adquirido em 2026.
As medidas foram anunciadas diante da possibilidade de impactos do El Niño sobre a produção e os preços dos alimentos. A capacidade de intervenção, porém, continua limitada quando comparada à dimensão do mercado brasileiro.
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Arroz tem apenas 293 toneladas em estoque
A situação mais expressiva é a do arroz. As 293 toneladas armazenadas em julho representam uma parcela mínima diante da produção nacional estimada em 11,1 milhões de toneladas na safra 2025/2026.
O estoque público também apresenta uma trajetória de redução nos últimos anos. Em 2021, a União mantinha 21,6 mil toneladas. O volume caiu para 1,8 mil toneladas em 2022 e chegou a zero em 2023. No fim de 2025, eram 224 toneladas, número que subiu para 293 toneladas em julho de 2026.
A autorização de até R$ 500 milhões para novas compras não determina antecipadamente a quantidade de arroz que será adquirida. O volume dependerá dos preços definidos pela Conab nos leilões e das propostas apresentadas por produtores e cooperativas.
Outra mudança permite que as compras sejam realizadas por valores de até 25% acima do preço mínimo oficial. O limite não significa que o governo pagará automaticamente esse percentual sobre os preços de mercado. Os valores de abertura dos leilões deverão considerar as cotações observadas nas regiões produtoras.
A regra permite que a Conab compre o produto mesmo quando as cotações estiverem acima do preço mínimo, aumentando a possibilidade de formação de estoques em períodos de mercado aquecido.
A produção brasileira de arroz prevista para a safra 2025/2026 é 13,1% menor que a da temporada anterior. A Conab considera o volume suficiente para atender ao consumo, mas a redução da colheita diminui a margem de segurança diante de problemas climáticos, logísticos ou comerciais.
As compras poderão ocorrer em Estados produtores onde o preço de mercado esteja acima do preço mínimo. Produtores rurais e cooperativas poderão participar dos leilões. O produto deverá ser arroz longo fino em casca, Tipo 1, com ajustes no valor conforme o rendimento de grãos inteiros entregue.
Milho tem estoque público menor que o consumo diário
O milho apresenta uma situação diferente. O produto é utilizado principalmente na alimentação animal e influencia os custos de produção de aves, suínos, bovinos, caprinos, ovinos e peixes.
O Brasil deve produzir cerca de 143 milhões de toneladas de milho na safra 2025/2026, enquanto o estoque comercial de passagem é estimado pela Conab em 15,58 milhões de toneladas.
Esse volume comercial, no entanto, não pertence ao governo. Ele inclui estoques mantidos por produtores, cooperativas, tradings, indústrias e outros agentes da cadeia. Portanto, a existência de milho no mercado não significa que a União possa direcionar o produto rapidamente para uma região atingida por seca ou por uma alta localizada de preços.
O estoque público era de 125,5 mil toneladas em julho. A autorização para comprar até 260 mil toneladas representa mais que o dobro da reserva existente naquele momento.
Mesmo o novo limite, entretanto, tem dimensão pequena diante do mercado nacional. O consumo interno é estimado em cerca de 95 milhões de toneladas por ano, o que significa que 260 mil toneladas correspondem a aproximadamente um dia de consumo brasileiro.
A função da compra pública, portanto, não é controlar o preço nacional do milho. O produto será utilizado principalmente no Programa de Venda em Balcão, que atende pequenos criadores, com destaque para produtores do Nordeste.
Em períodos de seca, o programa pode ajudar a evitar que pequenos criadores enfrentem falta de ração ou precisem reduzir os rebanhos diante da elevação dos preços e dos custos de transporte.
A legislação também ampliou os produtos que podem abastecer o programa. Além do milho, a Conab poderá adquirir itens como sorgo, caroço de algodão, farelo de soja e farelo de milho, permitindo maior flexibilidade na composição da alimentação animal.
Feijão e trigo também têm reservas reduzidas
O estoque público de feijão era de apenas 207 toneladas em julho. A produção brasileira está estimada em aproximadamente 3 milhões de toneladas, 3,2% abaixo da safra anterior.
O produto apresenta características que dificultam a formação de grandes estoques, entre elas a menor capacidade de armazenamento em comparação com alguns outros grãos e a diversidade de tipos consumidos nas diferentes regiões brasileiras. Além disso, a produção é distribuída em três safras ao longo do ano.
Ainda assim, uma reserva de 207 toneladas representa uma capacidade limitada de intervenção em uma eventual crise nacional de abastecimento.
No trigo, o estoque público chegava a 6,6 mil toneladas em julho. A produção brasileira deverá cair 26,2% em 2026, para cerca de 5,8 milhões de toneladas, segundo as projeções apresentadas no material.
A dependência brasileira das importações torna o trigo diferente dos demais produtos. O abastecimento nacional é complementado principalmente por fornecedores do Mercosul, o que aumenta a influência das condições do mercado externo sobre a disponibilidade e os preços internos.
Estoque público e estoque comercial são diferentes
A diferença entre estoque público e estoque comercial é importante para entender a capacidade de resposta do governo.
O estoque comercial corresponde ao produto que permanece disponível ao longo da cadeia, em propriedades rurais, cooperativas, tradings, indústrias e outros agentes. Já o estoque público pertence à União e pode ser utilizado em políticas de abastecimento.
A formação de reservas permite que o governo atue em momentos distintos. Durante a colheita, as compras podem retirar parte da oferta do mercado e criar uma alternativa de comercialização para o produtor. Em períodos de menor disponibilidade, os produtos armazenados podem ser liberados para regiões afetadas.
Esse mecanismo, entretanto, depende da existência de volumes suficientes e de uma distribuição adequada dos armazéns.
A estratégia também envolve riscos. Compras realizadas em momentos de preços elevados podem aumentar os gastos públicos. Estoques excessivos geram custos de armazenagem e risco de perda de qualidade. Por outro lado, esperar uma crise para iniciar as compras pode dificultar a formação de reservas em quantidade e localização adequadas.
Por isso, a autorização de recursos e volumes máximos não significa que toda a quantidade será necessariamente adquirida.
Capacidade de resposta ainda é limitada
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, a retomada das compras representa uma tentativa de recuperar a capacidade de intervenção do governo, mas os volumes atuais mostram que as reservas ainda são pequenas diante do tamanho do mercado.
“Estoque regulador não é instrumento para o governo substituir o mercado nem controlar preços artificialmente. Ele funciona como um seguro para o país: o poder público compra parte da produção em momentos de maior oferta e pode liberar o produto quando uma quebra de safra, uma enchente ou um problema logístico ameaça o abastecimento”, afirmou.
Segundo Rezende, a efetividade da política dependerá da velocidade das compras e da distribuição dos estoques para regiões que possam enfrentar problemas de abastecimento.
O especialista também considera que a formação de reservas deve ocorrer antes de situações de emergência. Para ele, a experiência com as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 mostrou os riscos de depender de medidas emergenciais diante de uma quebra de produção.
“A crise do arroz de 2024 deixou essa fragilidade evidente. As enchentes no Rio Grande do Sul, responsável pela maior parte da produção nacional, provocaram temor de desabastecimento e pressão sobre os preços. Como não havia reserva pública suficiente, o governo tentou organizar às pressas uma importação, por meio de um leilão que acabou cancelado”, disse.
Na avaliação de Rezende, a formação de estoques precisa incluir metas permanentes, renovação dos produtos e armazéns próximos das regiões consumidoras.
A recomposição das reservas ocorre, portanto, em um cenário no qual os produtos têm funções diferentes na segurança alimentar. Arroz e feijão têm impacto direto sobre a cesta básica, o trigo influencia produtos como pão e massas e o milho é um dos principais componentes da alimentação animal.
As novas compras podem ampliar a capacidade de resposta da Conab, mas o alcance das medidas dependerá dos volumes efetivamente adquiridos, da localização dos estoques e da evolução das condições climáticas e de mercado ao longo dos próximos meses.
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