Relatório da Reforma Tributária preocupa o setor da cachaça

Foto: Confraria Paulista de Cachaça

O relatório da Reforma Tributária anunciado nesta terça-feira (04), pelo deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB,) pode acelerar o crescimento da informalidade e da ilegalidade que o setor da cachaça enfrenta atualmente no país, além de onerar uma categoria que já detém uma das mais altas cargas tributárias do Brasil. A afirmação é do diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC), Carlos Lima.

O relatório e a proposta de Emenda Constitucional apresentados ontem preveem a criação de um Imposto Seletivo, de caráter extrafiscal, para alguns setores, entre eles de bebidas alcoólicas, o que impactará diretamente no destilado verde e amarelo: a cachaça.

Segundo Carlos Lima, a cachaça é hoje um dos produtos mais taxados do Brasil. Considerando apenas os principais impostos (PIS, COFINS, ICMS e IPI) e, com base em alíquotas nominais e tendo como referência o estado de São Paulo, a carga direta é de 59,25%. Considerados impostos diretos e indiretos esse número chega a mais de 80%.

Lima pontua que a categoria ainda não absorveu o impacto resultante do aumento do IPI no começo de 2015 para o setor de destilados. “O cenário se agravou quando, naquele ano, houve uma alteração que alterou a sistemática de cobrança de IPI. Essa alteração, no caso da cachaça, em alguns casos, resultou em um aumento de mais de 200% só no valor do IPI pago”, explica.

A alta carga tributária é um dos principais fatores que contribui para a alta informalidade do setor. Segundo o último levantamento do Anuário da Cachaça, de 2020, realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o número de estabelecimentos produtores de cachaça e aguardente reduziu em 22,26%, passando em 2018 de 1.397 para 1.086 estabelecimentos em 2019. A informalidade do setor, em número de estabelecimentos, ultrapassa 90% quando comparamos ao número de estabelecimentos listados pelo IBGE, no Censo Agropecuário de 2016. 

MERCADO ILEGAL – A alta tributação também acelera o mercado ilegal de bebidas alcoólicas no Brasil. Dados da Euromonitor Internacional de 2018, e divulgados pelo IBRAC em 2019, registram que, em 2017, mais de 111 milhões de litros (em álcool puro) de destilados, o equivalente a 28,8% do volume comercializado, eram ilegais.

Se considerados os diversos ilícitos, a cachaça é a categoria que mais sofre com o ilícito relacionado à produção ilegal e, segundo estimativas do IBRAC, cerca de 160 milhões de garrafas de 700 ml são fabricadas e comercializadas em desrespeito à legislação sanitária em vigor.

Um novo estudo feito Euromonitor International em 2020, intitulado “Álcool Ilícito na América Latina – Modelo de impacto da Covid-19”, realizado também pela consultoria em setembro de 2020 e que teve como base o estudo divulgado em 2019, estima que a pandemia pode ter elevado em, aproximadamente, 10,1% o mercado ilícito de bebidas destiladas no Brasil, em comparação com o ano de 2019. Com esse aumento, o mercado ilícito de destilados em 2020 pode ter alcançando aproximados 40%.

Segundo a consultoria, um produto ilegal pode custar até 70% menos que o legal. O estudo também revelou que com a ilegalidade de bebidas destiladas a evasão de impostos em 2017 chegou ao patamar de R$ 5,5 bilhões.

“Qualquer medida do governo de onerar ainda mais o setor da cachaça e acentuar assimetrias já existentes no setor de bebidas alcoólicas vai acentuar a queda do número de produtores legalizados no Brasil e a contribuição do setor aos cofres públicos, além de incentivar a clandestinidade e o crescimento do mercado ilegal”, enfatiza Lima.

“Quem perde muito com isso é o brasileiro, ao consumir produtos sem procedência comprovada, e o Brasil na luta pela valorização de um produto que é símbolo nacional e vetor de desenvolvimento regional, que contribui significativamente para gerar emprego e renda para o país”, completa.

Atualmente, o setor da cachaça é responsável pela geração de mais de 600 mil empregos diretos e indiretos. O destilado é o mais consumido pelos brasileiros e um dos quatro mais consumidos em todo mundo.

Fonte: Upperpr

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