Canal de Suez restabelece o tráfego após conseguir desencalhar navio

As manobras conseguiram liberar o fluxo após seis dias. O presidente egípcio, Al Sisi, diz que a crise acabou, mas dezenas de navios ainda estão esperando para conseguir cruzar essa rota estratégica

As manobras para tentar desencalhar o megacargueiro Ever Given, que obstrui o canal de Suez desde a última terça-feira (22), tiveram sucesso parcial na madrugada desta segunda (29). O brigadeiro Osama Rabie, chefe da Autoridade do Canal de Suez e responsável pela operação, informou pela manhã, através de um porta-voz, que o navio começou a flutuar “satisfatoriamente” e que sua posição já pôde ser modificada em 80%. O tráfego também foi restaurado, de acordo com a Reuters. O militar acrescentou que, graças às manobras de empurrar e rebocar, a popa da embarcação foi levada a 102 metros da margem, em vez dos 4 metros anteriores, uma mudança que pode ser observada inclusive nos mapas dos rastreadores de tráfego marítimo.

O presidente do Egito, Abdel Fatah al Sisi, manifestou pelo Facebook seu otimismo com o desbloqueio do canal: “Hoje, os egípcios conseguiram pôr fim à crise, apesar da enorme complexidade técnica que cercou o processo”, declarou. Entretanto, a proa permanece encalhada, e Peter Berdowski, executivo-chefe da empresa Boskalis, encarregada do resgate do Ever Given, tratou de rapidamente esfriar o entusiasmo do presidente militar. “Não cantemos vitória cedo demais”, afirmou ele à rádio holandesa NPO. “As boas notícias são que a popa está livre, mas vimos que essa é a parte mais simples do trabalho.”

O prestador de serviços marítimos Inchcape Shipping e a companhia Leth Agencies também confirmaram o sucesso parcial da operação. Em seguida, estava previsto que as manobras fossem retomadas quando a maré no canal alcançasse dois metros, seu nível máximo, por volta de 11h30 desta segunda (6h30 em Brasília), a fim de modificar por completo o rumo do casco em direção ao centro da via navegável. Os técnicos injetarão água a alta pressão sob a proa para remover a areia e barro que bloqueiam o navio, mas, se esta operação fracassar, os contêineres terão que ser retirados navio para reduzir seu peso, segundo Berdowski. Entretanto, caso a operação dê certo, a navegação será retomada em três dias e meio, segundo declarações de Rabie citadas pela agência AFP. O militar já ordenou revisões técnicas de alguns dos navios que fazem fila―367, segundo a Leth Agencies―, prevendo a retomada da circulação, segundo o comunicado.

O anúncio do desencalhe ocorreu depois que, na sexta-feira (26), houve pela primeira vez um “progresso significativo” na zona da popa, o que permitiu liberar o navio do banco de areia, incluído o leme, segundo um comunicado do porta-voz da empresa Bernhard Schulte Shipmanagement, encarregada das questões técnicas do navio. As dragas se centraram desde então em retirar areia e lodo que estavam junto ao lado de bombordo (esquerdo) da proa, e se esperava que uma maré favorável e a lua cheia acabassem criando as condições ideais para deslocar a embarcação. Rabie tinha explicado durante uma entrevista coletiva no sábado que os especialistas haviam conseguido movimentar o leme e também um hélice, o que, junto com a chegada de novos rebocadores, devia ajudar a desencalhar o navio. “O cenário que mobilizamos [na sexta-feira] foi bastante bem-sucedido”, havia dito Rabie. Desde a noite de domingo foram retiradas mais de 20.000 toneladas de areia e lodo da área ao redor do navio, segundo um comunicado da empresa Evergreen, que opera o Ever Given.

O bloqueio do canal de Suez representava uma ameaça de primeira ordem às cadeias de suprimento globais. Pouco mais de 10% do comércio mundial passam pelos 190 quilômetros desta via navegável, que conecta o mar Vermelho ao Mediterrâneo, segundo estimativas da Autoridade do Canal de Suez. Trata-se de um dos caminhos navais mais importantes do planeta para o transporte de gás, petróleo e mercadorias em contêineres. O tráfego marítimo diário através do canal de Suez é estimado em 9,6 bilhões de dólares (55,25 bilhões de reais), segundo uma estimativa elaborada pela empresa Lloyd’s List, especializada em informação sobre comércio marítimo. A infraestrutura também representa uma das principais fontes de divisas estrangeiras para o Egito.

Enquanto o Ever Given começava a ser deslocado, pelo menos 367 navios se encontravam esperando sua vez de cruzar o canal, que está com a navegação suspensa oficialmente desde quinta-feira passada. Deles, 98 são graneleiros, 96 cargueiros de contêineres, e 35 transportam petróleo. Rabie havia dito no sábado que, após concluída a operação de resgate, as autoridades do canal trabalhariam sem descanso para eliminar as filas num prazo de um ou dois dias, embora não esteja claro por quanto tempo esse processo se prolongará, levando-se em conta os navios que chegaram desde então. Fontes do setor também tinham estimado anteriormente ao EL PAÍS que a Autoridade do Canal de Suez trataria de não perder tráfego futuro ampliando a circulação de navios das 50 embarcações diárias habituais para 85. Diante da possibilidade de que a delicada operação para desencalhar o Ever Given pudesse levar vários dias ou inclusive semanas, a maioria das grandes companhias navais havia começado a desviar seus barcos para a rota ao redor da África.

A estratégia de resgate na qual a Autoridade do Canal de Suez apostou consistiu em combinar o trabalho de escavadoras e dragas―que se encarregam de extrair areia das margens do canal para abrir espaço e retirar o fundo onde ficaram encalhadas a proa e a popa, a fim de facilitar movimentos que favoreçam a flutuação do navio―com o de rebocadores, que tratam de arrastar o barco para endireitá-lo em relação ao traçado do canal. No pior dos cenários, se contemplava liberar parte da carga a bordo do Ever Given, uma operação mais complexa, que levaria dias ou semanas.

Fonte: El País

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