Preço do café sobe mais de 130% esse ano e a alta deve continuar

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Julio Huber

Os preços dos cafés das variedades arábica e conilon estão registrando altas expressivas desde o início do ano. Além da redução nacional desta safra devido à bienalidade negativa (quando a produção do arábica é menor), outro fator que afetou o mercado mundial foia redução da colheita para 2022. A queda já está prevista em 10 milhões de sacas para o próximo ano, devido à geada que atingiu cafezais em junho e agosto e à seca persistente em algumas regiões produtoras brasileiras.

Especialistas do mercado cafeeiro acreditam que os preços irão seguir em alta. No final do mês de agosto, o café conilon tipo 7/8 custava R$ 660,00 a saca de 60 quilos, segundo o Centro de Comércio de Café de Vitória (CCCV). Em janeiro deste ano, o mesmo café custava R$ 386,00, um aumento de mais de R$ 70% em oito meses.

Já o café arábica bebida “rio”, de peneira 17 acima, abriu o ano custando R$ 392,00. No último dia de agosto o mesmo café custava R$ 903,00, um acréscimo de R$ 130%. O arábica bebida dura, bica corrida, fechou o mês de agosto custando R$ 1 mil a saca, um aumento de 100% se comparado com o valor de R$ 500,00 do início do ano.

O presidente do CCCV, Márcio Candido Ferreira, explicou o motivo do preço do café ter subido tanto este ano. “Temos um déficit de café, tanto o Brasil, quanto no mundo. No Brasil, que é o maior produtor mundial, esse déficit é oriundo da longa estiagem e acentuado por demais pela geada de julho, que é o evento deste tipo mais severo desde 1994”, destacou.

Segundo Márcio, a próxima safra que era estimada em cerca de 50 milhões de sacas, já caiu para cerca de 40 milhões de sacas. Ele lembrou que em 2019, os produtores estavam vendendo o café com entrega futura a cerca de R$ 550,00 a saca, sendo cafés de boa qualidade, principalmente de arábicas mineiros.

“Antes, se tinha um sonho de chegar a R$ 600,00 uma saca, hoje o preço é de R$ 1,1 mil a R$ 1,2 mil. Falando do conilon, hoje temos um preço mais justo, acima de R$ 650,00, diferente dos R$ 350,00 de tempos atrás, preço esse que é difícil imaginarmos sendo negociado novamente a médio e até a longo prazo, mesmo porque os custos subiram muito”, informou.

Especialista em mercado de café e proprietário da marca MM, o empresário Marcus Magalhães também falou sobre os atuais preços. “O clima mudou a história do café. Essa realidade que estamos vivendo hoje veio para ficar. Teremos um 2022 complicado e não temos estoques no mundo capazes de acalmar o mercado”, alertou.

Marcus Magalhães acredita que os preços do café vão continuar elevados

Segundo ele, além da seca prolongada, a geada, a Covid-19 e as dificuldades de containers para o transporte de commodities são os ingredientes que fizeram com que se chegasse ao momento atual. “Essa situação global colocou o café em outra história, e dificilmente vamos voltar a viver uma situação que vivemos há 10 ou 20 anos. Esse é um novo normal que veio para ficar”, acredita.

MOMENTO DE VENDER – De acordo com o presidente do CCCV, agora é o momento de o produtor continuar vendendo a produção, mas não de vender o café todo. “É preciso ir dosando, como o produtor vem fazendo. Não esquecendo que o mercado é regido por vários fatores, como o preço da moeda, a variação da bolsa, entre outros fatores. Se o preço estiver satisfatório, pode ir vendendo”, sugere.

Ele afirma que a expectativa é que o preço continue subindo. “A característica do produtor, principalmente quando vai chegando mais o final do ano e início do ano, é que ele retenha mais ainda o produto. Isso deve levar a um aumento ainda maior na bolsa. Se o dólar continuar com os preços atuais, é possível que tenhamos preços ainda maiores do que os de hoje em dia”, acredita.

Marcus Magalhães também acredita que a melhor estratégia é vender aos poucos a produção. “Se o produtor não foi impactado pela seca ou pela geada, perder a oportunidade de vender café a R$ 1,1 mil ou R$ 1,2 mil é uma loucura. O café pode ir a R$ 1,5 mil a saca? Pode. Tomara que vá. Mas é importante fazer uma média de preço. No conilon é a mesma coisa. É importante vender aos atuais R$ 600,00, e se subir mais, vende mais um pouco. O mercado precisa ter fluxo, é preciso realizar os negócios”, orienta.

Recursos do Funcafé irão auxiliar cafeicultores

Para auxiliar os cafeicultores afetados pela geada, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou, em reunião extraordinária, uma resolução que reserva R$ 1,319 bilhão para o auxílio a produtores nas principais regiões produtoras de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Esse montante representa 20% dos recursos do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé).

O Ministério da Agricultura já assinou os primeiros 14 contratos com agentes financeiros que irão aplicar os recursos do Funcafé, nesta temporada, fazendo com que os montantes comecem a ser disponibilizados a partir da primeira quinzena de setembro.

Os recursos poderão, assim, ser acessados por produtores, cooperativas, indústrias e exportadores por meio dos bancos e cooperativas de crédito aptos a operá-los. No total, 34 instituições financeiras irão negociá-los, segundo o ministério.

O orçamento estipulado para o Funcafé neste ano é de R$ 4,64 bilhões, divididos entre R$ 1,28 bilhão para custeio, R$ 1,77 bilhão para comercialização, R$ 1,08 bilhão para aquisição e R$ 504,4 milhões para capital de giro, voltados às indústrias e cooperativas. O montante de R$ 1,32 bilhão foi reservado para apoio a cafeicultores que sofreram perdas por geadas recentes.

“Estamos aguardando o resultado do levantamento das efetivas perdas no cafezal, que está sendo realizado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o que deve acontecer até o final do mês de setembro”, disse em nota o diretor do Departamento de Comercialização e Abastecimento do ministério, Silvio Farnese.

Segundo estimativas da Emater-MG, as geadas causaram perdas em cerca de 19% das áreas de café de Minas Gerais. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também citou recentemente projeções de perdas da ordem de 20%.

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Julio Huber

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