Qual o segredo de um café campeão?

Foto: Bruno Faustino

Considerado o “Campeão dos Campeões”, o cafeicultor Luiz Claudio de Souza se orgulha dos grãos produzidos em Muqui, no sul do Espírito Santo

Bruno Faustino – Muqui / ES

Imagine uma joia rara, brilhante, valiosa…  Assim podemos definir os grãos especiais produzidos no Espírito Santo, sejam eles das montanhas, do Caparaó ou do Sul capixaba. 

“Os cafés capixabas sempre trazem para nós fantásticas surpresas. O Espírito Santo e a Bahia são os dois únicos estados que conseguem produzir simultaneamente as variedades arábica e conilon. Eles têm esta possibilidade por terem as montanhas e as regiões perto das praias, com baixa altitude e mais calor, então, são regiões propícias para a produção de robusta”, explica Vanusia Nogueira, diretora da Associação Brasileira de Café Especiais (BSCA).

O Brasil teve sua safra 2020-2021 total estimada em 48,8 milhões de sacas de 60 quilos, número que representa, aproximadamente, 30% da produção mundial, estimada em 164,8 milhões de sacas, segundo dados do Sumário Executivo do Café 2021, divulgado em setembro. A produção brasileira contempla 33,3 milhões de sacas de café arábica, que equivalem a 38% da produção mundial, e 15,4 milhões de sacas de café robusta, as quais correspondem a 20% do volume físico produzido dessa espécie no mundo.

Nunca é demais lembrar que o Espírito Santo é o 2º maior produtor de café do Brasil, com cerca de 25% da produção nacional, e o maior produtor brasileiro de conilon, com 75% da produção nacional do Robusta. E, todos os anos, saem das lavouras capixabas verdadeiros tesouros, com aromas e sabores únicos.

“O produtor brasileiro está cada vez mais se profissionalizando, buscando por qualidade e, com isso, a gente vem verificando uma melhoria muito interessante a cada safra.”

Vanusia Nogueira, diretora da Associação Brasileira de Café Especiais (BSCA)
Vanusia Nogueira, diretora da Associação Brasileira de Café Especiais (BSCA), conta onde são produzidos os melhores cafés no Brasil

Saca de café arábica especial capixaba vendida a R$ 26,7 mil

O leilão dos melhores cafés especiais do Brasil, na safra 2020, bateu recordes. O pregão registrou o maior preço médio da história ao atingir US$ 14,5 por libra-peso, o que equivale a R$ 9.662,99 (US$ 1.918,06) por saca de 60 kg. A arrecadação total foi de R$ 1.864.740,60 (US$ 370.142,44), o melhor nível em reais alcançado no leilão do Cup of Excellence no país – principal concurso de qualidade para o produto no mundo, que é realizado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e a Alliance for Coffee Excellence (ACE)..

O maior lance do leilão foi pago ao café campeão da competição, produzido pelo jovem Luiz Ricardo Bozzi Pimenta de Sousa, no Sítio Escondica, em Venda Nova do Imigrante, nas Montanhas do Espírito Santo. Dividido em dois lotes, a primeira fração recebeu o equivalente a R$ 26,7 mil por saca (US$ 40/lb-peso ou US$ 5.291,20) e a segunda R$ 25,9 mil/saca (US$ 38,9/lb-peso ou US$ 5.145,69). 

HISTÓRICO – Luiz Ricardo Bozzi Pimenta de Sousa foi o campeão do Cup of Excellence – Brazil 2020. O jovem, com formação em técnico agrícola, é debutante na competição e vem de uma família cafeeira de pequenos produtores, que há anos se dedica ao cultivo de cafés descascados nas montanhas capixabas.

Muqui: a cidade do “Campeão dos Campeões”

Muqui é um município localizado ao sul do Espírito Santo. O curioso nome da cidade é de origem indígena e significa “entre morros” – uma alusão à posição geográfica, que se apresenta resguardada entre grandiosas formações rochosas.

É nesta colônia de descendentes de italianos que está localizado o sítio Grãos de Ouro, comandado pelo cafeicultor Luiz Claudio de Souza. Ele é considerado o “Campeão dos Campeões” – devido aos inúmeros títulos conquistados.

 

Foto: Julio Huber

Os troféus provam que os grãos produzidos na propriedade são, realmente, “Grãos de Ouro”

“Eu gosto da cafeicultura, gosto do que eu faço. É emocionante. A gente trabalha com o coração na atividade. E o resultado vem desse amor que a gente coloca em todo o processo de produção do café”, define Luiz Claudio.

O nome da propriedade revela bem como os grãos produzidos por ele são tratados. “O trabalho da gente é direcionado, a gente tem metas… Eu sempre acreditei na qualidade e ser campeão do Brasil duas vezes era um sonho, mas a gente não acreditou que iria acontecer tão rápido. O trabalho da gente é reconhecido quando tem uma premiação dessa. O café conilon ser premiado como o melhor do Brasil estimula outros produtores a apostarem na qualidade”, revela o cafeicultor. 

Luiz Claudio de Souza coleciona prêmios em concursos de café

ARÁBICA X CONILON – A produção de café na propriedade começou na década de 70, com a validade arábica e permaneceu assim por 35 anos. Até que, em 2005, aconteceu a conversão para o conilon e, em seguida, a aposta em cafés especiais. Mas, para alcançar a excelência na produção, é preciso alguns cuidados com a lavoura.

“A condução da lavoura, o manejo… A planta precisa de conforto. Todo estresse atrapalha na hora da produção dos grãos e, consequentemente, na qualidade do café.”

Luiz Claudio de Souza, cafeicultor

Todos os pés de café plantados na propriedade vieram de clones desenvolvidos pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). “Nos últimos anos, o Incaper tem desenvolvido muitas tecnologias que proporcionam ao cafeicultor fazer um produto melhor, com material genético direcionado para a produtividade e também à qualidade”, explica Luiz Claudio.

Protagonismo + Visibilidade = Cooperativismo

Fundada em 1998, a Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul) começou com apenas 20 associados. Atualmente, são mais de 160 espalhados por sete municípios capixabas: Muqui, Mimoso do Sul, Atílio Viváqua, Jerônimo Monteiro, Alegre, Anchieta e Cachoeiro do Itapemirim. A cooperativa é formada, na sua maioria, por agricultores familiares.

O “Campeão dos Campeões” se orgulha em ser um dos fundadores da Cafesul. “Se hoje eu tenho o café entre os melhores do Brasil, é, justamente, porque eu estou participando de uma cooperativa e a cooperativa consegue reunir parceiros que fazem a gente ir bem longe. Tudo aquilo que é demandado dos cafeicultores, a cooperativa ajuda”, comenta Luiz Claudio.

A Cafesul vem, há alguns anos, incentivando a qualidade dos grãos por meio dos concursos de café e assistência técnica aos cooperados. “Nós identificamos que o mercado está exigindo isso. E a cooperativa auxilia os produtores nesse processo de café de qualidade”, explica Talles da Silva de Souza, gerente operacional da cooperativa.

SUSTENTABILIDADE – Desde 2008, a Cafesul conseguiu a certificação Internacional Fairtrade para o Comércio Justo, que tem sede em Bonn, na Alemanha, e que trabalha em três eixos de sustentabilidade: ambiental, social e econômico. Atendidas condições ambientais e sociais, a cooperativa recebe um preço mínimo de garantia em dólar, ou o valor de mercado – o que for maior -, e um prêmio social por saca vendida para ser investido na estrutura administrativa e física da cooperativa e em projetos para os cooperados e para as comunidades onde ela atua.

“Como a gente entende que o meio ambiente é fundamental para também produzir grãos de qualidade, precisa ter água, precisa ter a proteção das florestas… traz pra gente um prazer, por estar trabalhando e cuidando da natureza”, diz o cafeicultor.

Carlos Renato Alvarenga Theodoro, presidente da Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul) e da BRFAIR, explica o que é o Comércio Justo

ROMPENDO FRONTEIRAS – Graças ao cooperativismo e à certificação Fairtrade, os grãos produzidos no sul do Espírito Santo ganham o mundo. “Nunca poderia imaginar que o meu café chegasse tão longe. Imagina! Rússia, Itália, Estados Unidos… A gente trabalha e percebe que a procura por cafés especiais está aumentando a cada dia. Por isso, nós insistimos até agora em produzir qualidade acreditando que o mercado iria reconhecer o conilon como um ótimo café”, ressalta Luiz.

CONSUMO – Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), o consumo interno no país registrou crescimento em 2020: foram 21,2 milhões de  sacas entre novembro de 2019 e outubro de 2020, o que representa uma alta de 1,34% em relação ao período anterior, que considerou dados de novembro de 2018 a outubro de 2019.

Já em 2021, o número de brasileiros que tomam o equivalente a uma xícara por dia cresceu 5%, comparando com 2019. Os dados são de uma pesquisa feita pelos Institutos Agronômico e Axxus, em parceria com a Unicamp.  

Quem sai ganhando com todo esse cuidado relatado na reportagem com a lavoura, com o fruto, com a colheita na hora certa e com o pós-colheita, é o consumidor. “Uma vez colhendo os grãos na hora certa, é certeza que o café vai chegar na xícara do consumidor da melhor maneira possível”, finaliza Luis Claudio.

Imagens: Diego Luis / Edição de imagens: Bruno Faustino

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